Xxgwise
PremiumEntrar
Notícias

A aposta de Neymar na Copa: Brasil ainda deseja seu próprio

Copa do MundoBrasilParis Saint-GermainÁfrica do SulArgentinaBarcelonaVenezuelaColômbiaParaguaiJuventus

Carlo Ancelotti convoca um lesionado Neymar para a seleção brasileira na Copa apesar de apenas 682 minutos em ligas este ano, expondo uma duradoura dependência

A notícia de que Carlo Ancelotti incluiu um desgastado e propenso a lesões Neymar na seleção brasileira para a Copa do Mundo causou choque no mundo do futebol. É uma decisão que cheira a desespero, uma última jogada para uma nação que passou mais de uma década tentando fabricar seu próprio Lionel Messi. Neymar, agora com 34 anos e se recuperando de uma nova lesão na panturrilha, foi titular em apenas 27 partidas de campeonato nos últimos três anos e acumulou míseros 682 minutos de ação em ligas nesta temporada. Apenas por mérito, sua convocação é indefensável; no entanto, aqui está ele, mais uma vez carregando o peso das impossíveis expectativas de um país.

A obsessão por encontrar um Messi brasileiro começou quase assim que o gênio argentino irrompeu em cena. Quando Neymar fez sua estreia profissional em 2010, ainda adolescente, ele foi imediatamente apresentado como o antídoto para a depressão pós-Dunga. A lógica era simples: se a Argentina tinha Messi, o Brasil precisava de sua própria estrela transcendente. Esse fardo nunca realmente se aliviou. Ao longo de sua carreira, Neymar tem sido um espelho refletindo as ansiedades de uma nação apaixonada por futebol, uma tela na qual torcedores e mídia pintaram suas próprias fantasias de um retorno ao domínio mundial.

A realidade, no entanto, sempre ficou aquém. Na Copa de 2018, todo o esquema tático do Brasil foi distorcido para acomodar o papel flutuante de Neymar, deixando um enorme vazio no flanco esquerdo que a Bélgica explorou impiedosamente nas quartas de final. A jogada de mestre de Roberto Martínez moveu Romelu Lukaku para o lado aberto, mirando o espaço que Neymar deixava vago, e o Brasil estava desequilibrado demais para responder. A imagem de um Neymar abatido, de cabeça baixa contra uma tela iluminada após a derrota, capturou a pressão esmagadora que ele suportava — não como líder, mas como um totem sagrado.

Quatro anos antes, a loucura atingiu seu auge. Na brutal partida de quartas de final contra a Colômbia, Neymar sofreu uma fratura na vértebra após uma entrada desastrada de Juan Camilo Zúñiga. A reação no Brasil foi histriônica: a nação se lamentou como se uma tragédia tivesse ocorrido, e na semifinal contra a Alemanha, seus companheiros de equipe ergueram sua camisa durante o hino nacional como se invocassem uma divindade. A resultante goleada de 7 a 1 foi um colapso psicológico que expôs o centro oco do culto a Neymar. O Brasil havia feito dele o messias, e quando ele não estava lá, eles se desintegraram.

Entre essas decepções de Copa do Mundo, a carreira de Neymar nos clubes ofereceu vislumbres do que poderia ter sido. No Barcelona, ao lado de Messi e Luis Suárez, ele fez parte de um tridente devastador que venceu a Liga dos Campeões em 2015. No entanto, mesmo assim, ele nunca foi o principal, sempre na sombra de Messi. Sua transferência recorde para o Paris Saint-Germain em 2017 deveria ser sua libertação, mas apenas aprofundou sua identidade como ferramenta para lavagem esportiva geopolítica. Lesões e distrações extracampo erodiram seu brilho, e quando Messi se juntou a ele em Paris, a dinâmica parecia uma paródia: o aprendiz ainda seguindo o mestre.

Avançando para hoje, os números são condenatórios. O corpo de Neymar o traiu repetidamente, e mesmo antes da última lesão na panturrilha, ele era um contribuidor esporádico. Nos últimos três anos, suas titularidades em campeonatos mal ultrapassam duas temporadas de futebol. Nesta temporada, ele havia jogado menos de 700 minutos antes de se lesionar novamente. Ancelotti, um técnico renomado por seu gerenciamento de grupo e pragmatismo, sabe de tudo isso. Sua decisão de convocar Neymar de qualquer forma sugere que ele está se curvando a forças além de seu controle — sejam políticas da federação, pressões comerciais ou o simples terror de treinar o Brasil sem um totem.

A comparação com Messi que assombrou Neymar agora é impossível de ignorar. Quando Messi finalmente conquistou a Copa do Mundo em 2022 aos 35 anos, ele o fez após meia temporada de futebol regular e prolífico no PSG. Estava em forma, afiado e cercado por uma seleção argentina equilibrada construída ao seu redor. Neymar, por outro lado, chega mancando a este torneio com migalhas. Enquanto Messi foi um maestro no Catar, Neymar parece mais um violinista quebrado que só pode esperar fazer uma participação especial do banco.

O que essa convocação significa para as perspectivas do Brasil? Em termos práticos, corre o risco de desequilibrar a equipe como fez em 2018. Ancelotti terá que encontrar estruturas compensatórias para cobrir um jogador que oferece pouca intensidade defensiva e cujos arroubos explosivos agora são raros. Emocionalmente, reacende a mesma dependência doentia que tem assombrado a Seleção por uma geração. O elenco está cheio de jovens talentos — Vinícius Júnior, Rodrygo, Endrick — mas todos os olhos estarão voltados para uma estrela em declínio, esperando um último lampejo de brilhantismo.

A dimensão política não pode ser subestimada. No Brasil, o técnico da seleção nacional não é apenas um treinador, mas um para-raios do sentimento público. Ancelotti, apesar de seu currículo na Champions League, pode ter concluído que omitir Neymar era um movimento de carreira mais arriscado do que incluí-lo. Melhor ter um ícone quebrado no banco e dividir a culpa se as coisas derem errado do que enfrentar a ira de 200 milhões de torcedores que ainda veem Neymar como sua única esperança. É um lembrete sóbrio de que mesmo os melhores treinadores não estão imunes às exigências da narrativa.

Em última análise, esta é uma aposta baseada em ilusões. Não há caso lógico para a inclusão de Neymar dado seu condicionamento físico e forma, apenas um emocional. Talvez ele possa invocar um último momento de magia, um gol no fim para justificar a fé, mas o resultado mais provável é uma repetição de decepções passadas — uma campanha arrastada por um desequilíbrio criado em seu nome. O desespero do Brasil por um Messi próprio distorceu sua identidade futebolística por muito tempo, e esta convocação prova que eles ainda não aprenderam a lição.

À medida que a Copa se aproxima, o mundo observará se a fé de Ancelotti é recompensada ou se a história de Neymar termina não com uma última dança triunfante, mas com outra saída silenciosa. Baseado em reportagens do The Guardian.