A jornada do Paris Saint-Germain até a final da Liga dos Campeões representa uma das transformações mais profundas do futebol moderno. Os campeões franceses garantiram seu lugar no grande jogo em Budapeste ao superar o Bayern de Munique por 6 a 5 no placar agregado de uma emocionante semifinal, marcando um encontro com o Arsenal em 30 de maio. No entanto, este time do PSG pouco se assemelha às equipes repletas de estrelas, mas muitas vezes desconexas, do passado. Sob a orientação meticulosa do técnico Luis Enrique, o clube foi reconstruído desde as bases, abandonando a era dos egos individuais por uma cultura de força coletiva e disciplina tática.
O jogo de volta da semifinal em Munique forneceu um microcosmo perfeito dessa nova identidade. Enfrentando a barulhenta Allianz Arena e um Bayern desesperado para reverter a desvantagem, o PSG atacou com precisão devastadora logo no início. Uma jogada rápida e incisiva culminou com Ousmane Dembélé balançando as redes após apenas três minutos, um gol que praticamente matou a eliminatória. Embora Harry Kane tenha diminuído a diferença nos acréscimos, foi apenas uma nota de rodapé. Os jogadores do PSG comemoraram o feito de alcançar uma segunda final consecutiva, um feito que ressalta sua excelência sustentada no mais alto nível.
O arquiteto desse renascimento é Luis Enrique, que assumiu o comando no verão de 2023. Sua missão era clara: desmantelar o modelo disfuncional de 'galácticos' que anteriormente contara com Lionel Messi, Kylian Mbappé e Neymar, mas que não conquistou o prêmio máximo. O técnico espanhol exigiu um elenco construído sobre ética de trabalho e unidade, não sobre reputação. Aqueles que compraram a visão prosperaram; os que não, foram negociados. O resultado é uma equipe onde o talento individual brilhante é perfeitamente integrado a uma estrutura coletiva formidável.
No coração dessa solidez defensiva está o capitão Marquinhos. O zagueiro central brasileiro, que chegou da Roma em 2013, sobreviveu à limpeza técnica porque seu profissionalismo e qualidade eram inegáveis. Ele formou uma dupla dominante com Willian Pacho, uma parceria que foi fundamental para conter o potente ataque do Bayern. Sua liderança e habilidades organizacionais fornecem a base sobre a qual o brilho ofensivo do PSG é construído, um equilíbrio que faltou em campanhas anteriores.
Esse brilho ofensivo é inegável. A combinação de Khvicha Kvaratskhelia e Dembélé pelas pontas proporciona uma ameaça constante, com a determinação do georgiano e o brilho redescoberto do francês —aperfeiçoado por Enrique a um nível de Bola de Ouro— criando pesadelos para as defesas. A ascensão do jovem de 20 anos Désiré Doué adiciona uma dimensão jovem e empolgante, enquanto o trio de meio-campo formado por Vitinha, Fabián Ruiz e João Neves opera como uma sala de máquinas perfeitamente calibrada. Ruiz, em particular, exemplifica a natureza dual da equipe: capaz de um passe que quebra a defesa para um gol em um momento, e de uma marcação defensiva incansável no seguinte.
Essa fluidez tática foi exibida em todo o seu esplendor ao longo das duas partidas contra o Bayern. O jogo de ida em Paris foi um clássico, mostrando as deslumbrantes capacidades ofensivas do PSG. O jogo de volta demonstrou seu lado defensivo resoluto e bem treinado, enquanto absorviam a pressão e protegiam a vantagem com compostura. Essa adaptabilidade também ficou evidente na vitória arrasadora nas quartas de final contra o Liverpool, onde venceram em Anfield pela segunda temporada consecutiva e garantiram uma vitória agregada de 4 a 0 sobre os campeões ingleses.
A transformação é talvez melhor simbolizada por Ousmane Dembélé. Outrora considerado um caro desajustado durante sua passagem pelo Barcelona, ele foi revitalizado para se tornar um jogador de classe mundial sob Enrique. Sua comemoração de uma dividida duramente conquistada em Munique com o mesmo fervor de seu gol encapsula o novo ethos: cada contribuição importa, e a responsabilidade defensiva é inegociável. Essa mudança de mentalidade transformou uma coleção de indivíduos talentosos em uma máquina unificada e implacável.
Para o Arsenal, alcançar sua primeira final da Liga dos Campeões em 20 anos é uma conquista monumental. No entanto, a magnitude de sua tarefa é imensa. O técnico Mikel Arteta precisa encontrar uma maneira de superar um time que especialistas como o ex-zagueiro Stephen Warnock descrevem como não tendo fraqueza discernível, exceto talvez a posição de goleiro. Conter os laterais dinâmicos do PSG enquanto também oferece uma ameaça ofensiva exigirá uma atuação tática e física perfeita dos 'Gunners'.
O ex-capitão do Liverpool, Steven Gerrard, resumiu o desafio, observando que Enrique 'afastou' as primadonnas e construiu um time baseado em princípios e ética de trabalho. Este PSG, sugeriu ele, 'poderia dominar por anos vindouros'. Enquanto o mundo do futebol volta seus olhos para Budapeste, a narrativa é clara: o Arsenal não enfrenta apenas um time de estrelas, mas uma unidade completa, coesa e experiente em batalhas — o teste definitivo no futebol de clubes europeu. Baseado em reportagens da BBC Sport.