O caminho da Holanda para a Copa do Mundo de 2026 foi pavimentado com destruição. Ronald Koeman, o técnico perfeccionista, enfrenta uma praga de lesões que tirou quase metade de seus titulares previstos. Com o torneio começando em 11 de junho, os holandeses estão em uma corrida contra o tempo para salvar uma campanha que um dia foi cheia de altas expectativas.
A lista de baixas é impressionante. Xavi Simons, do Tottenham, o dinamismo criativo, sofreu uma ruptura do ligamento cruzado anterior em abril e não retornará até 2027. O meio-campista do PSV Jerdy Schouten também se recupera da mesma lesão devastadora. Na zaga central, Matthijs de Ligt não conseguiu se livrar de um problema persistente nas costas, enquanto o pilar do Barcelona Frenkie de Jong perdeu a maior parte da temporada com seus próprios problemas físicos. O lateral do Inter Denzel Dumfries ficou afastado por quatro meses, e Memphis Depay, outrora talismã ofensivo, sofreu uma grave lesão no tendão da coxa no final de sua campanha de clube no Brasil. Até mesmo as opções de profundidade — Tijjani Reijnders do Manchester City e Nathan Aké — passaram tempo demais no banco para garantir ritmo de jogo.
Koeman, devoto discípulo do futebol ofensivo de Johan Cruyff, sempre insistiu no tradicional sistema 4-3-3 holandês. Mas com tantos titulares indisponíveis ou sem ritmo, sua filosofia está sob forte pressão. Durante as eliminatórias, a Oranje jogou um estilo holandês prototípico — fluido, criativo e com pressão alta — mas agora o pragmatismo pode forçar uma repensada tática. Koeman pode ter que escalar seus guerreiros mais aptos em vez de seus artistas mais tecnicamente dotados, uma mudança brusca dos ideais cruyffianos que há muito definem o futebol holandês.
Sorteados em um grupo desafiador ao lado de Japão, Suécia e Tunísia, a Holanda não tem margem para erros. A energia implacável do Japão, a fisicalidade da Suécia e a organização defensiva da Tunísia testarão qualquer escalação, mas uma seleção holandesa desfalcada corre risco de eliminação precoce. A Associação Real de Futebol dos Países Baixos estabeleceu uma meta de semifinais, mas Koeman, sempre ambicioso, quer ir além e vencer o torneio. Isso agora parece uma tarefa difícil.
Para entender o peso deste momento, é preciso apreciar a estatura de Koeman. Ele continua sendo o único homem a ter sucesso com todos os três gigantes tradicionais da Holanda — Ajax, Feyenoord e PSV — tanto como jogador quanto como técnico. Ele dividiu um quarto com um jovem Pep Guardiola durante seus dias no Barcelona sob Cruyff, absorvendo a filosofia ofensiva que mais tarde levou para a carreira de treinador. Esse pedigree lhe rende profundo respeito em todo o cenário do futebol holandês e um forte vínculo com seus jogadores. No entanto, esta crise é talvez o teste mais severo de sua liderança.
Fora do campo, Koeman carrega um fardo ainda maior. Sua esposa, Bartina, está em tratamento contra o câncer — seu terceiro surto desde 2010. Durante as eliminatórias, Koeman ocasionalmente deixou a concentração para ficar ao lado dela. Ele falou de sua força notável, mas também da dura realidade dos efeitos colaterais da quimioterapia. Esse drama pessoal adiciona uma camada de complexidade emocional a um desafio profissional já assustador. "Se eu tivesse que sair, era para ficar com minha esposa", disse à FIFA. "Mas ela é incrivelmente forte e positiva. Isso é algo muito especial".
Por décadas, as estrelas holandesas foram atacantes — Cruyff, Van Basten, Bergkamp. Mas a espinha dorsal desta equipe é sua defesa, comandada por Virgil van Dijk, do Liverpool. Aos 33 anos, ele é o general de Koeman em campo, a voz mais autoritária no vestiário e o elo com a federação. Koeman admite que precisa cutucar constantemente Van Dijk para manter o gume, uma dinâmica que remonta aos seus dias no Southampton. A experiência e a compostura de Van Dijk serão críticas se a Holanda quiser sobreviver à fase de grupos.
Emergindo das sombras está Micky van de Ven, um defensor que lutou para chegar à Premier League via Volendam e Wolfsburg sem o benefício de uma grande academia. Koeman anteriormente o excluiu por preocupações com lesões musculares, mas a velocidade impressionante, a entrada robusta e a corrida incansável de Van de Ven finalmente lhe renderam um lugar titular. Neste cenário arrasado por lesões, sua energia pode ser a faísca que os holandeses desesperadamente precisam.
A fiel torcida da Oranje levará sua cor inconfundível aos Estados Unidos. O icônico ônibus de dois andares laranja, enviado com um mês de antecedência, liderará as procissões no centro de Kansas City, Dallas e Houston. Milhares de torcedores holandeses marcharão, dançarão ao som do hino "Links Rechts" do Snollebollekes e criarão uma atmosfera de carnaval. Até o Rei Willem-Alexander e a Rainha Máxima fizeram múltiplas visitas à Casa Branca para fortalecer laços, embora a opinião pública em casa permaneça amplamente negativa em relação a Donald Trump, descrito por alguns políticos como um "charlatão político". O contraste entre a diplomacia real e o fervor dos fãs é evidente.
Apesar da turbulência, a Holanda não está sem esperança. Van Dijk ancora uma defesa que ainda pode estar entre as mais sólidas do torneio, e a ascensão de Van de Ven oferece um raio de esperança. Mas o vazio ofensivo deixado por Simons e Depay será difícil de preencher. A adaptabilidade tática de Koeman — talvez uma mudança para um esquema mais cauteloso — pode decidir o destino da Holanda. De uma nação que um dia encarnou o ideal estético do futebol, o pragmatismo pode ter que prevalecer. Baseado em reportagens do The Guardian.