A convocação para a seleção da Escócia na Copa do Mundo selou uma ascensão de conto de fadas para Ross Stewart, o atacante do Southampton cujo caminho para o palco global foi forjado no tumulto do futebol juvenil escocês. Enquanto a nação se prepara para sua primeira aparição em uma Copa em quase três décadas, a história de Stewart se destaca como um testemunho de resiliência, uma jornada que começou com um nariz quebrado e um risco financeiro do pai.
Muito antes de ser um prolífico atacante para Sunderland e Southampton, Stewart era um adolescente desengonçado cuja confiança foi destruída após ser dispensado pelas categorias de base de St Mirren, Celtic e Partick Thistle. Ele caiu nas fileiras juvenis — um ambiente semi-profissional ferozmente competitivo — jogando por Ardeer Thistle e Kilwinning Rangers. Foi lá, entre veteranos endurecidos e arquibancadas implacáveis, que redescobriu seu amor pelo jogo.
“Quando fui jogar nos juniores, estando em um ambiente adulto, realmente me adaptei e me apaixonei novamente pelo futebol, pelo companheirismo e pelas brincadeiras”, lembrou Stewart em 2022. “Você não é tratado como um jogador juvenil, é tratado como um adulto”. Esse tratamento adulto significava que não havia piedade, como ele descobriu em um confronto brutal contra o Pollok. Um ombro no nariz deixou sangue escorrendo e o osso torto, enquanto torcedores locais o chamavam de “mergulhador”. O incidente o fortaleceu: “Não há remorso por nenhum tipo de lesão naquele nível — você tem que se levantar e seguir em frente”.
A forma chamativa de Stewart logo chamou a atenção de clubes superiores. Quando o Albion Rovers, da terceira divisão, o procurou, uma saga de transferência única se desenrolou. O Kilwinning queria £1.500, mas o Rovers só conseguia £1.000. Então entrou o pai de Stewart, Cameron, ex-zagueiro juvenil, que contribuiu com as £500 restantes. Foi um investimento que renderia dividendos astronômicos, iniciando uma escalada por St Mirren, Ross County e além. “Papai diz que eu viver meus sonhos é suficiente para ele”, disse Stewart mais tarde, “mas provavelmente o paguei com ingressos de cortesia”.
A mudança para o futebol profissional marcou o início de uma ascensão constante. No Ross County, Stewart provou seu valor na Scottish Premiership antes de um salto para a Inglaterra em 2018 que mudou tudo. O Sunderland, então na League One, viu no atacante um potencial como força talismânica. Uma enxurrada de gols se seguiu, impulsionando os Black Cats ao acesso, e lhe rendeu o apelido de “O Drogba do Lago Ness” entre a torcida de Wearside.
Mas o conto de fadas sofreu um revés brutal após sua transferência para o Southampton em 2023. Uma sequência infernal de lesões o afastou por longos períodos, testando sua fortaleza mental. Para um jogador que já havia superado tanto, os contratempos físicos ameaçaram descarrilar uma carreira em ascensão. No entanto, a resiliência de Stewart, forjada naqueles lamacentos campos juvenis, brilhou. Ele lutou para voltar à plena forma e, desde janeiro, tem sido uma revelação.
Uma boa fase o viu marcar nove vezes em 2024, incluindo um gol memorável contra o Arsenal nas quartas de final da FA Cup e o gol crucial na semifinal do play-off do Championship que levou o Southampton além do Middlesbrough. Esses gols “de jogos grandes” não passaram despercebidos pelo técnico da Escócia, Steve Clarke. “Desde janeiro, ele teve uma boa fase onde mostrou que pode marcar gols importantes em jogos importantes”, disse Clarke. “É uma boa história. Ele estava no meu elenco alguns anos atrás, mostrando que pode chegar a este nível. Ele teve uma sequência terrível de lesões”.
A decisão de Clarke de reconvocar Stewart para a Copa não é meramente sentimental. O jogador de 29 anos oferece uma dimensão diferente ao ataque da Escócia — uma presença física e ameaça aérea forjada nas divisões inferiores. Para uma nação sedenta de ação em Copas desde 1998, Stewart personifica a garra e os caminhos não ortodoxos que definem o folclore do futebol escocês. Sua inclusão fala de um técnico que valoriza o caráter tanto quanto a habilidade; a jornada de Stewart desde os juniores lhe deu ambos em abundância.
Antes de voltar totalmente sua atenção para o palco global, Stewart tem mais uma montanha para escalar em seu clube. O Southampton enfrenta o Hull City na final do play-off do Championship em Wembley, uma chance de retorno imediato à Premier League. Uma boa atuação ali não apenas coroaria uma temporada pessoal notável, mas também cimentaria seu status como homem para as grandes ocasiões — uma qualidade na qual Clarke apostará quando a Escócia iniciar sua campanha na Copa.
O arco da carreira de Stewart, dos campos ensanguentados do futebol juvenil escocês ao limiar da Copa do Mundo, é coisa de lenda esportiva. É uma narrativa enriquecida pela fé de um pai, um nariz quebrado e uma recusa inabalável em desistir. Enquanto se prepara para vestir o azul escuro de seu país no maior palco do futebol, Stewart carrega consigo as cicatrizes e lições de um caminho menos percorrido, provando que às vezes os caminhos mais difíceis levam aos maiores destinos. Baseado em reportagens da BBC Sport.