Thomas Tuchel depositou sua fé em uma convocação de 26 jogadores para a Inglaterra baseada na irmandade em vez do brilho individual, tomando várias decisões ousadas e divisivas para a Copa do Mundo de 2026. O técnico alemão, que assumiu o cargo no outono passado, enfatizou que criar um time vencedor não se trata necessariamente de “os 26 jogadores mais talentosos”. Em vez disso, priorizou a aceitação de papéis e o altruísmo, uma filosofia que viu nomes de destaque como Cole Palmer, Phil Foden e Harry Maguire ficarem de fora. Com a Inglaterra almejando uma campanha de sete semanas em três países-sede, a harmonia do grupo será testada desde o apito inicial em 17 de junho.
A inclusão mais surpreendente é a de Ivan Toney, o atacante do Al-Ahli que não joga pela Inglaterra desde uma breve aparição contra Senegal em junho de 2025. Tuchel admitiu que não observou pessoalmente Toney na Arábia Saudita, mas se baseou nos relatórios do assistente técnico Justin Cochrane. Ao pensar em maneiras de buscar um jogo, Tuchel voltava repetidamente à ameaça aérea e à compostura nos pênaltis de Toney, qualidades que complementam o estilo de Harry Kane. No entanto, houve uma cerca a consertar: a atitude de Toney durante aquela concentração anterior forçou uma conversa franca antes que Tuchel pudesse recebê-lo de volta. O jogador de 30 anos agora representa uma opção curinga que pode ser decisiva em momentos eliminatórios.
Igualmente controversa é a seleção de John Stones, um defensor cuja forma física tem sido um ponto de interrogação persistente. Stones fez apenas quatro partidas pelo Manchester City desde dezembro e não é titular na liga desde outubro. No entanto, Tuchel vê o jogador de 31 anos como um líder de classe mundial cujos dados de treino sugerem que ele pode suportar o desgaste do torneio. Faltando semanas para a estreia da Inglaterra, Tuchel espera que um longo período de preparação aprimore a prontidão de Stones. É um risco calculado que pode sair pela culatra se o zagueiro se lesionar, deixando o treinador aberto a novas críticas sobre sua dependência de jogadores propensos a lesões.
A inclusão de Djed Spence levantou sobrancelhas dada a má temporada do Tottenham, mas Tuchel vê um ativo insubstituível. O lateral de 25 anos oferece versatilidade genuína com ambos os pés e velocidade elétrica — Tuchel o considera o jogador mais rápido da Inglaterra. Sua defesa um contra um pode ser crucial contra pontas de elite em qualquer lado. Embora a produção ofensiva de Spence possa não igualar a de Lewis Hall ou Luke Shaw, suas características físicas o tornam uma arma especializada para batalhas táticas específicas. É uma escolha pragmática que ressalta a disposição de Tuchel em confiar em seu olho em vez da opinião pública.
A criatividade foi a maior vítima na poda de Tuchel. Palmer, Foden e Morgan Gibbs-White ficaram em casa, com Tuchel afirmando de forma direta que Palmer “não conseguiu provar em um nível consistente” e que o papel de Foden não está mais claro. Ao reduzir o grupo de criadores para Jude Bellingham, Morgan Rogers e Eberechi Eze, Tuchel eliminou o debate midiático sobre a posição de camisa 10. Bellingham e Rogers, amigos de infância, podem competir por uma vaga como “cúmplices, não inimigos”, observou. Mas a decisão levanta questões sobre a capacidade da Inglaterra de romper defesas fechadas sem a improvisação de Palmer ou o movimento inteligente de Foden.
A composição do meio-campo também gerou debate. O passe de ruptura de linhas de Adam Wharton vindo de trás foi preterido em favor da agilidade de Kobbie Mainoo em espaços apertados. Tuchel argumentou que Declan Rice e Elliot Anderson podem fornecer “coisas especiais”, enquanto apontou Reece James e até Stones como potenciais opções para o '6'. Essa versatilidade oferece cobertura, mas a ausência de um armador especializado como Wharton pode limitar as transições da Inglaterra contra defesas compactas. A inclusão de Nico O'Reilly, um lateral-esquerdo que atua como '8' no Manchester City, sugere ainda mais o pensamento flexível e baseado em sistemas de Tuchel.
Os gols continuam sendo uma preocupação além de Kane, o maior artilheiro da história da Inglaterra com 78 gols internacionais. Marcus Rashford (18) e Bukayo Saka (14) são os únicos outros membros do elenco com números de dois dígitos. Bellingham, Rice e Ollie Watkins têm seis cada, mas Noni Madueke, Rogers e Toney têm apenas um. A temporada de 17 gols de Anthony Gordon pelo Newcastle ofereceu um vislumbre, mas Tuchel precisa que seus atacantes traduzam o desempenho de clube em contundência internacional se a Inglaterra quiser evitar dependência excessiva de seu capitão.
Surgiram obstáculos logísticos com a final da Champions League do Arsenal no próximo sábado, que atrasará os jogadores desse clube para o campo de treinamento na Flórida. Tuchel planeja integrar várias promessas juvenis — Alex Scott, Rio Ngumoha e Josh King — para manter a intensidade, com a pequena possibilidade de uma convocação tardia por lesão. O período prolongado de preparação é tanto um desafio quanto uma oportunidade para Tuchel incutir a identidade coletiva de seu elenco.
Ao abraçar o espírito de equipe sobre o poder das estrelas, Tuchel traçou uma linha clara. Sua convocação está repleta de riscos: o temperamento de Toney, o corpo de Stones, o perfil divisivo de Spence e um meio-campo que pode carecer de um verdadeiro marcador de ritmo. No entanto, se a irmandade que ele imagina se materializar, a Inglaterra pode finalmente unir talento com a resiliência necessária para vencer uma primeira Copa do Mundo desde 1966. As próximas sete semanas determinarão se a lógica de Tuchel ecoa a de vencedores de torneios passados — ou se junta à longa lista de quase-acertos ingleses.
Com base em reportagens do The Guardian.