O ex-ponta da Juventus e da seleção italiana Angelo Di Livio recentemente fez uma viagem ao passado, oferecendo um tesouro de anedotas de seu tempo em Turim em meados dos anos 90. Falando em um evento da Tuttosport, Di Livio pintou um quadro vívido de um time que alcançou a imortalidade europeia, destacando os personagens e momentos que definiram uma era.
Di Livio chegou à Juventus em 1993, no mesmo ano que um jovem Alessandro Del Piero. Ele descreveu a mudança como emocionante, cheia de um senso de responsabilidade. "Vestir a camisa da Juve te dá força e também uma certa antipatia dos rivais", explicou. "É um estímulo extra". Seu primeiro vislumbre de Del Piero foi durante uma partida de treino de quinta-feira entre o time principal e os juvenis. "Ele já era incrivelmente talentoso", lembrou Di Livio. "O diretor Aggradi pedia para não fazermos entradas fortes nele. Às vezes eu o levava para casa. A mãe dele pediu para eu cuidar dele, mas ele era tão educado".
Os anos de formação do ponta no clube foram marcados por prática incessante. "Eu fiz o trabalho duro de verdade", disse ele. "A Champions League era um sonho. Mas jogo após jogo, me sentia mais forte. Após o treino, sempre ficava para cruzar a bola. Depois cruzava de novo. E de novo". Essa dedicação valeu a pena, pois ele se tornou um componente chave do formidável time de Marcello Lippi. "Quando as pessoas dizem que o grupo é importante, acreditem: realmente é", enfatizou Di Livio. "Ainda hoje, nos encontramos com frequência, às vezes em Viareggio com o Mister Lippi. Ficamos juntos e lembramos daqueles momentos. E das brincadeiras..."
Uma dessas brincadeiras envolvia as meias brancas do time. "Qualquer um que usasse meias brancas seria punido: cortavam a ponta, então quando você colocava o pé, o dedo saía. Eu fazia isso frequentemente com [Ciro] Ferrara", riu. Mas a camaradagem era construída sobre uma base de competição feroz e respeito mútuo, personificados pelo capitão Gianluca Vialli. "Ele era um verdadeiro capitão", afirmou Di Livio. "Ele nos pegou pela mão e realmente nos levou a uma mentalidade vencedora. E ele era um chato: se você desse um passe baixo, ele queria alto. E vice-versa. Quantas vezes ele me xingou por aquele drible? Vou agradecê-lo para sempre; ele nos deixou cedo demais".
A liderança de Vialli se estendia além do campo. "Quando voltávamos de viagens europeias, nenhum restaurante em Turim estava aberto. Quinze de nós íamos para a casa do Luca para um banquete de macarrão às três da manhã e estávamos em casa às quatro", compartilhou Di Livio. A preparação física do time era igualmente intensa, supervisionada pelo preparador físico Giampiero Ventrone. "Ele nos fazia fazer 500 abdominais. Quinhentos! Como é possível? Às vezes eu ficava sentado e parava quando ele não estava olhando. Me faça correr por três dias, mas não me quebre assim".
O auge de sua jornada foi a final da Champions League de 1996 em Roma. Di Livio lembrou da tensa semifinal contra o Real Madrid, onde o goleiro Angelo Peruzzi fez defesas cruciais. "Agradecemos a ele até hoje", disse Di Livio. "Ele foi um valor agregado fenomenal em momentos decisivos. Entre ele e Buffon — e Gigi me perdoará — sempre escolho Angelo. Devo a ele". A vitória por 2 a 0 no Bernabéu foi suada. "Nos minutos finais, o Madrid teve uma grande chance; meu coração estava na garganta. Mas merecemos: entramos com o desejo de ir a Roma e conseguimos. Entrei por quinze minutos e dei tudo de mim".
A final em si contra o Ajax foi uma batalha desgastante. O principal arrependimento de Di Livio foi não ter vencido no tempo normal. "Entrei faltando 18 minutos. Lippi me disse: 'Vê aquele cara com as tranças? Gruda nele, não deixe ele iniciar um contra-ataque'. Era Edgar Davids. Dois minutos depois, ele escapou de mim e fui advertido". O jogo foi para os pênaltis, um cenário que Di Livio temia. "Eu seria o sexto batedor. Graças a Deus não chegamos lá: Del Piero não bateu, Vialli não bateu. E poderia ter sido eu. Van der Sar era um gigante, e eu observava [Massimo] Pessotto: ele bateu o pênalti com uma calma que me deixou com inveja. Eu abraçava [Moreno] Torricelli e roía as unhas".
Di Livio também compartilhou um momento mais leve das celebrações, explicando por que foi famosamente fotografado levantando o troféu de cueca. "Eu até discuti com minha esposa por causa disso! Eu tinha dado meu short para uma criança. Na verdade, aproveito esta oportunidade: gostaria de encontrá-lo novamente. Ele deve ter uns 40 anos agora". O desgaste emocional da campanha foi imenso. "Não dormi por quinze dias. A tensão era exaustiva. Mas tudo foi maravilhoso, e espero que com trabalho duro, a Juventus possa voltar lá".
Refletindo sobre seus companheiros, Di Livio destacou dois heróis anônimos. "Padovano e Jugovic me surpreenderam. O primeiro era subestimado demais, o segundo era o homem frio: o mais próximo de Zidane". Quanto a Antonio Conte, agora um renomado treinador, a avaliação de Di Livio foi direta. "Ele já era um jogador moderno naquela época. Como treinador? Um maníaco. Podemos dizer isso? Não sei como ele ainda aguenta: no final do ano, eles devem ter que recarregá-lo. Mas ele é extraordinário: por alguém como ele, eu teria me jogado no fogo".
As lembranças de Di Livio servem como um poderoso lembrete da união, sacrifício e pura vontade que impulsionaram a Juventus ao topo do futebol europeu. Suas histórias sobre a generosidade de Vialli, o gênio motivacional de Lippi e a incansável ética de trabalho do time sob Ventrone oferecem uma visão dos bastidores de um time lendário. Para a Juventus moderna, que atualmente navega por um cenário diferente, essas memórias de glórias passadas oferecem tanto inspiração quanto um ponto de referência do que é preciso para conquistar a Europa. Baseado em reportagens da Tuttosport.com - Calcio.