A imagem é icônica na memória dos torcedores da Juventus: um jogador que, em seus dias de folga, parecia passear pelo campo como se estivesse indo para a praia, seu foco vagando como uma tarde preguiçosa de verão. No entanto, num piscar de olhos, aquelas metafóricas chinelas podiam se transformar em botas letais, e um lampejo de genialidade podia desmantelar qualquer defesa. Este era o paradoxo de Mirko Vučinić, o atacante montenegrino cujas três temporadas em Turim de 2011 a 2014 coincidiram com o início de uma era de domínio sem precedentes para o clube.
Vučinić chegou como a primeira grande melhoria ofensiva para o recém-nomeado técnico Antonio Conte. Sua passagem coincidiu diretamente com o início do que se tornariam nove campeonatos consecutivos da Série A para os Bianconeri. Embora seu total de 26 gols em três temporadas possa parecer modesto, a qualidade e o momento de muitos foram extraordinários. Ele não era um artilheiro prolífico no sentido tradicional, mas um criador de momentos decisivos e de tirar o fôlego. Seu valor residia em sua capacidade de produzir algo do nada, uma característica que o tornava tanto o sonho de um treinador quanto um pesadelo tático.
O relacionamento entre Vučinić e Conte foi um estudo de contrastes, um constante vai e vem entre indolência e intensidade. Conte, um técnico de disciplina feroz e rigidez tática, reconheceu abertamente o talento único do atacante. Em uma citação reveladora, Conte afirmou certa vez: "Acho que Vučinić é de longe o elemento mais talentoso que temos no elenco. Ele é o jogador que de um momento para o outro pode inventar uma jogada, que pode ser decisivo na fase ofensiva. Por isso, o mantenho muito perto." Esta admissão ressalta o enigma que Vučinić apresentava: sua genialidade era valiosa demais para ser mantida no banco, mesmo quando seu esforço diminuía.
Essa tensão muitas vezes se manifestava publicamente. As explosões fogosas de Conte da beira do campo eram uma visão comum, direcionadas a Vučinić enquanto ele vagava pelo campo. O atacante geralmente reconhecia a repreensão com um aceno contrito, sugerindo que uma mudança era iminente. No entanto, essa submissão era fugaz. Em segundos, ele voltava ao seu próprio estilo oblíquo de jogo, um método que confundia os adversários e, às vezes, até seus próprios companheiros. Marcá-lo era um desafio único; ele possuía uma paciência zen, esperando o momento preciso em que a concentração de seu defensor vacilasse para golpear com precisão letal. Ele incorporava a calma e a tempestade.
Um gol resume perfeitamente sua essência. No jogo de volta da semifinal da Copa da Itália de 2012 contra o Milan, com a partida na prorrogação, Vučinić recebeu a bola de Claudio Marchisio a uns vinte metros do gol. Ele a controlou calmamente, deu um, quase dois toques, aparentemente fazendo seus oponentes cochilarem. Da entrada da área, onde ele mesmo parecia ter cochilado, finalmente levantou a cabeça. Um piscar de olhos foi suficiente para soltar um chute feroz com a direita que subiu majestosamente para o ângulo superior. Foi um momento de genialidade pura e sem adulterações que decidiu um confronto crucial.
Fora de campo, Vučinić era uma figura querida no vestiário. Seu afeto pelo time e pelo técnico era genuíno, e era correspondido. Essa camaradagem ficou plenamente evidente durante uma partida contra o Pescara. Depois de marcar, Vučinić comemorou tirando os shorts e correndo de cueca, uma façanha que fez o severo Conte lutar para conter um sorriso no banco. O presidente do clube, Andrea Agnelli, assistindo das arquibancadas, supostamente riu incontrolavelmente. Tais momentos de alegria espontânea destacavam o elemento humano dentro da máquina altamente estruturada de Conte.
Sua origem acrescentou outra camada à sua história. Vindo de Montenegro, como a amada rainha Helena da Itália, Vučinić compartilhava uma conexão com a história real de Turim. Embora talvez não possuísse um porte régio, ele conquistou os fiéis da Juventus com sua praticidade e acessibilidade. O artigo especula que um personagem como Vučinić teria fascinado o lendário Gianni Agnelli, que provavelmente lhe teria dado um apelido e o desafiado a realizar proezas técnicas impossíveis, como era seu costume com jogadores de tanto talento.
Quando Vučinić finalmente partiu, o clube estava em um ciclo implacável de atualização de seu elenco, deixando pouco tempo para nostalgia. No entanto, o artigo retrospectivo conclui com uma observação pungente: no cenário futebolístico atual, um jogador do brilho imprevisível de Vučinić seria um ativo inestimável. A nostalgia, ao que parece, não chega imediatamente após a despedida, mas anos depois, quando a magia única de tal gênio é verdadeiramente apreciada. Seu tempo na Juventus foi curto, mas seu impacto, como a faísca que ajudou a acender uma dinastia, é indelével.
Baseado em reportagens do Tuttosport.com - Calcio.