A Federação Francesa de Futebol (FFF) irá sediar a segunda edição do seu Tournoi des fiertés (Torneio do Orgulho) no sábado, 16 de maio, no centro nacional de treinamento em Clairefontaine. O evento se destaca como a única iniciativa dedicada contra a homofobia no futebol francês este ano, um duro lembrete da luta contínua do esporte pela inclusão. Jean-Bernard Moles, copresidente do Comitê da FFF para o Combate à Violência e Discriminação Sexista e Sexual (Cleved), manifestou profunda decepção pelo fato de a Liga de Futebol Profissional (LFP) estar notoriamente ausente do encontro. Sua crítica ressalta uma crescente divergência entre os dois órgãos dirigentes sobre a melhor forma de combater a discriminação no esporte.
O momento do torneio é deliberadamente simbólico, ocorrendo exatamente um dia antes do Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia em 17 de maio. Esse alinhamento visa amplificar a mensagem de que o futebol francês está tomando uma posição contra a LGBTI+fobia. No entanto, Moles lamentou que a decisão da LFP de ficar de fora deixa a FFF como a única grande organização de futebol do país a marcar a ocasião com um evento dedicado. 'La Ligue sera aux abonnés absents ce week-end', disse ele ao L'Equipe, uma frase que significa que a liga não será vista, uma ausência em um momento crítico para os valores do esporte.
O Torneio do Orgulho da FFF foi lançado no ano passado sob a presidência de Philippe Diallo e a direção do gerente geral Jean-François Vilotte, com o apoio da comissão federal de engajamento liderada por Amel Bouzoura. Foi visto como uma resposta às acusações de longa data de que a federação não havia feito o suficiente para combater a homofobia. Ao realizar um torneio focado unicamente nesta questão, a FFF pretendia enviar um sinal claro de comprometimento. A decisão de realizá-lo pelo segundo ano consecutivo visa demonstrar que não se trata de um gesto isolado, mas de um esforço sustentado para mudar a cultura do futebol francês.
Moles, doutor em ciências do esporte que traz um rigor acadêmico à luta contra a discriminação, não se conteve em sua avaliação da abordagem mais ampla da LFP. Ele apontou para o próprio dia da liga dedicado ao combate a todas as formas de discriminação, argumentando que, inadvertidamente, teve o efeito oposto na luta contra a homofobia. Em vez de lançar luz sobre a LGBTI+fobia, Moles acredita que a natureza abrangente da iniciativa da LFP serviu para invisibilizar as lutas específicas enfrentadas por pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e intersexuais no futebol. Essa crítica levanta questões desconfortáveis sobre se uma mensagem universal antidiscriminação pode abordar adequadamente a homofobia única e profundamente enraizada que persiste especialmente no futebol masculino.
A ausência da LFP em Clairefontaine é tanto simbólica quanto prática. A liga profissional representa o nível de elite do futebol francês, a Ligue 1 e a Ligue 2, onde o holofote é mais forte e o potencial de influência é maior. Sem a participação dos clubes profissionais ou o endosso da liga, o torneio corre o risco de ser visto como uma atividade periférica, desconectada do mundo de alto perfil de jogadores estrelas e grandes partidas. Para Moles e a FFF, essa desconexão é exatamente o ponto de sua frustração: a luta contra a homofobia não deve ser deixada apenas aos níveis amador ou de base, mas deve ser visivelmente defendida no topo.
A história da homofobia no futebol está repleta de incidentes que ficaram impunes ou receberam respostas mornas. O futebol francês teve sua parcela de controvérsias, desde cantos abusivos nos estádios até a falta de jogadores profissionais masculinos abertamente gays. O Torneio do Orgulho da FFF, que reúne equipes de diversas origens para competir e compartilhar experiências, é uma tentativa de criar um espaço seguro e visibilidade positiva. Ao criticar os esforços paralelos, mas menos focados, da LFP, Moles está efetivamente pedindo uma posição unificada que coloque a LGBTI+fobia no centro das atenções, em vez de diluí-la dentro de um conjunto mais amplo de questões.
A criação do próprio Cleved é um sinal de mudança institucional. Copresidido por Moles e Antonio Teixeira, o comitê foi estabelecido para dar estrutura e força ao trabalho da federação contra a violência e a discriminação. Seu envolvimento na organização do Torneio do Orgulho indica que a FFF está indo além de meras declarações para ações concretas. No entanto, a relutância da LFP em se envolver sugere que o órgão dirigente do futebol profissional tem uma filosofia diferente, que pode priorizar uma mensagem mais genérica em detrimento de iniciativas direcionadas, talvez por preocupações comerciais ou medo de alienar certas bases de torcedores.
As implicações dessa divisão vão além de um único fim de semana. Se os dois principais órgãos dirigentes do futebol francês não conseguirem se alinhar sobre como lidar com a homofobia, a mensagem geral para jogadores, treinadores e torcedores fica confusa. Isso cria um ambiente onde o progresso é fragmentado e onde os indivíduos mais vulneráveis podem sentir que suas experiências não estão sendo levadas a sério pelas próprias instituições que deveriam protegê-los. A frustração pública de Moles é um movimento estratégico para pressionar a LFP a fazer mais e com maior precisão.
À medida que a segunda edição do Tournoi des fiertés se aproxima, o foco estará nas histórias dos participantes e na atmosfera de inclusão que ele gera. Mas nos bastidores, a tensão entre a FFF e a LFP é um lembrete de que a batalha contra a homofobia no futebol está longe de ser vencida. O torneio é um farol, mas brilha um pouco mais fraco quando a liga profissional do país escolhe não ficar sob sua luz. Como a LFP responderá a essas críticas e se reconsiderará sua abordagem para os próximos anos continua sendo uma questão em aberto que será acompanhada de perto por defensores dentro e fora do esporte.
Com base em reportagens do L'Equipe.