Um padrão perturbador de violência contra profissionais médicos foi documentado no estado do Rio de Janeiro, com quase 1.000 médicos relatando algum tipo de agressão desde 2018. Os dados, compilados pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) através de sua plataforma 'Portal Defesa Médica', pintam um quadro sombrio dos perigos enfrentados pelos trabalhadores da saúde na linha de frente. As descobertas foram trazidas à atenção pública em um relatório recente, destacando uma crise silenciosa que se desenrola dentro de hospitais e unidades de saúde em todo o estado.
As estatísticas são contundentes e revelam uma disparidade significativa de gênero entre as vítimas. Entre 2018 e 2025, o conselho registrou 89 casos de agressão física, dos quais 60 tiveram como alvo médicas. Os números de agressão verbal são ainda mais alarmantes, com 459 incidentes relatados, dos quais 297 envolveram mulheres médicas. Além disso, 208 casos de assédio moral foram registrados, com 121 direcionados a profissionais do sexo feminino. Esse padrão consistente indica que as mulheres na área médica estão suportando uma carga desproporcional de violência no local de trabalho.
O custo humano por trás desses números é exemplificado pela experiência angustiante da Dra. Amanda Gil. Ela foi agredida fisicamente pela mãe de um paciente durante um turno noturno enquanto realizava uma reavaliação. A mãe, exigindo um exame de imagem para seu filho, não aceitou a explicação da médica sobre a necessidade de autorização de outra unidade. A situação escalou violentamente. "Ela me montou na maca, me mordeu, me arranhou, me bateu", relatou a Dra. Gil. A agressão foi tão grave que ela foi forçada a registrar um boletim de ocorrência e, no final, não conseguiu retornar ao seu turno pediátrico, abandonando o posto devido ao trauma.
Outro incidente grave ocorreu no Hospital de Irajá em julho de 2023. A Dra. Sandra Rodrigues estava sozinha de plantão quando foi agredida por um pai e uma filha que buscavam tratamento para um pequeno corte no dedo. Durante o ataque, um paciente de 82 anos na sala de cuidados críticos morreu por insuficiência cardiorrespiratória. A própria médica sofreu uma lesão pélvica que a deixou com dificuldade para andar por quase dez meses e resultou em dor crônica. Este caso tornou-se um catalisador para a mudança, levando o Conselho Federal de Medicina (CFM) a estabelecer uma resolução definindo novas normas de segurança para ambientes hospitalares.
A resolução do CFM determina várias medidas de proteção, incluindo a criação de rotas de fuga, espaços de refúgio designados para profissionais e a instalação de botões de pânico nas unidades de saúde. Embora algumas instalações tenham começado a implementar essas mudanças, a Dra. Rodrigues observa que a grande maioria da rede pública de saúde não seguiu o exemplo. Ela aponta um paradoxo preocupante: a precariedade dos contratos de trabalho piorou a situação, pois os profissionais são frequentemente ameaçados a não denunciar agressões, com medo de perder seus empregos.
A violência tem consequências tangíveis para o próprio sistema de saúde. O Dr. Raphael Câmara, relator da resolução do CFM, afirmou que a agressão contra médicos leva ao seu afastamento de áreas de alto risco. Ele destacou a dificuldade em encontrar médicos dispostos a trabalhar em certas comunidades do Rio devido a ameaças e risco pessoal. Este êxodo de profissionais de áreas vulneráveis agrava os problemas existentes de acesso à saúde para a população.
Líderes da comunidade médica estão pedindo ações decisivas. O presidente do Cremerj, Antônio Braga, defendeu medidas mais rigorosas para proteger os trabalhadores da saúde. "É necessário acabar com a violência contra os médicos. Sem segurança não haverá médicos, e sem médicos não teremos saúde", declarou. Esse sentimento captura a ameaça existencial que a violência descontrolada representa para a estabilidade e disponibilidade do atendimento médico.
A situação no Rio de Janeiro serve como um estudo de caso crítico para o desafio mais amplo de garantir condições de trabalho seguras para os profissionais de saúde. Os dados do Cremerj fornecem uma base concreta para entender a escala do problema, enquanto os depoimentos pessoais de médicas como a Dra. Gil e a Dra. Rodrigues ilustram o profundo custo pessoal e profissional. A implementação de protocolos de segurança como botões de pânico representa um passo à frente, mas os relatórios sugerem que mudanças sistêmicas, incluindo abordar a precariedade contratual e garantir uma aplicação consistente, são necessárias para proteger aqueles que dedicam suas vidas a curar os outros.
Com base em reportagens do g1.