Quando José Mourinho visitou o Santiago Bernabéu pela última vez, ele nunca chegou ao estande de imprensa do oitavo andar preparado para ele. O técnico do Benfica, suspenso para o jogo de ida do playoff da Champions League, assistiu à partida em um iPad do ônibus estacionado no subsolo. Aquela noite clandestina de fevereiro, com câmeras prontas mas nenhum Mourinho para capturar, agora parece um prólogo de uma história muito maior. Da próxima vez que ele entrar no estádio, provavelmente antes do final deste mês, não estará escondido. Será recebido como o salvador que retorna ao Real Madrid, o impossível transformado de repente em provável.
No centro do drama está uma cláusula no contrato de Mourinho com o Benfica, permitindo que ele saia durante uma janela de 10 dias após o fim da temporada. Sua campanha atual termina no domingo, enquanto a do Madrid termina uma semana depois. Embora ninguém no clube espanhol admita abertamente, uma abordagem foi feita, conversas ocorreram. O próprio Mourinho reconheceu uma oferta de extensão de contrato do Benfica, mas insistiu que não a consideraria até que o jogo final fosse disputado. Esse timing cuidadoso coincide com a inesperada convocação de eleições do clube por Florentino Pérez, com o presidente esperado para ser reeleito sem oposição em 24 de maio — exatamente no dia em que a temporada de liga do Madrid termina.
O primeiro período de Mourinho no Madrid, que terminou em 2013, foi uma mistura combustível de triunfo e tribulação. Ele conquistou um título recorde de La Liga que perfurou o domínio do Barcelona e levou o Madrid a três semifinais consecutivas da Champions League após uma seca de seis anos nas fases eliminatórias. No entanto, sua terceira temporada degenerou em guerra aberta com jogadores-chave como Sergio Ramos e Iker Casillas, deixando o que Mourinho descreveu mais tarde como uma "cicatriz na alma". Esse ato final — um cartão vermelho na derrota na final da Copa do Rei para o Atlético, uma sala de imprensa vazia, e um rei perguntando quem deveria receber a medalha de vice-campeão — epitomizou o amargo fim.
Apesar da acrimônia, Pérez nunca esqueceu o presente de despedida de Mourinho. "Agora vem a parte fácil; a difícil já está feita", disse o presidente a ele na saída, em referência a restaurar a vantagem competitiva do Madrid. Essa crença foi confirmada desde então por seis Copas Europeias na década seguinte. Dentro do clube, o afeto perdurou: o ex-lateral Álvaro Arbeloa, agora treinador, o chama de "uno de noi" (um de nós), e o próprio Mourinho falou do "respeito e afeto" que sente dos torcedores do Madrid. A ideia de um retorno sempre pairou no ar, embora raramente parecesse séria — até a crise atual se aprofundar.
A situação atual do Madrid é exatamente o tipo que torna irresistível uma figura da personalidade enérgica de Mourinho. Dois anos sem um grande troféu, um Barcelona ressurgente recuperando a superioridade doméstica, e uma temporada cheia de vazamentos e disfunções públicas corroeram a fé em abordagens de treinadores mais calmos. Apenas Mourinho, o último candidato cujo nome nunca foi descartado internamente, parece capaz de impor ordem. Pérez, que sempre ressentiu a percepção de fraqueza dos treinadores, mas raramente lhes concede verdadeira autoridade, vê no português a única exceção à sua regra — o "puto amo" que uma vez guerreou contra o Barcelona de Pep Guardiola e venceu.
Existem complicações, não menos a recente crítica de Mourinho à comemoração de gol de Vinícius Júnior após o brasileiro alegar abuso durante a mesma eliminatória da Champions. O incidente gerou reprimendas de Arbeloa, do goleiro Thibaut Courtois, e do próprio Pérez. No entanto, a decepção do presidente com esse episódio empalidece diante de sua frustração com o colapso da equipe. À medida que a lista de alternativas viáveis diminui, o próprio conflito que parecia fechar a porta pode agora ser reformulado como prova da liderança destemida que o Madrid requer. Na lógica da crise, o impensável se torna não apenas aceitável, mas necessário.
O timing eleitoral de Pérez dificilmente poderia ser mais conveniente. A cláusula de 10 dias significa que Mourinho pode negociar legalmente enquanto a temporada do Madrid atinge seu clímax. Se o presidente, como esperado, garantir um novo mandato sem oposição, teria mão livre para instalar o herói que retorna sem oposição. A simetria da saída de Mourinho do Benfica fluindo diretamente para uma apresentação no Bernabéu permitiria ao clube assumir a narrativa do verão, projetando força após uma temporada de deriva. É tanto um cálculo político quanto esportivo, uma aposta de que o homem que uma vez estacionou o ônibus no subsolo pode agora guiar o Madrid de volta ao topo.
O que realmente mudaria sob Mourinho é mais difícil de prever. Seu dogma tático, estilo de gestão de pessoas e espírito combativo são bem conhecidos, mas colidiriam com um time construído em torno de jovens talentos como Vinícius, a quem ele desafiou abertamente. No entanto, para um presidente que passou por 13 treinadores, com apenas três durando mais de um ano, o apelo é claro: Mourinho é a única figura que Pérez realmente empoderou, o "fucking boss" que igualou o ego da instituição. Treze anos após um divórcio turbulento, ambos os homens podem ter chegado à mesma conclusão — que precisam um do outro mais uma vez. Baseado em reportagens do The Guardian.