Por mais de sete meses, a UEFA não ofereceu resposta a um pedido formal da Associação Ucraniana de Futebol (UAF) para investigar a presença de clubes de futebol de imitação da Ucrânia ocupada dentro do sistema de ligas russo. As versões falsas do Shakhtar Donetsk e do Zorya Luhansk agora competem na quarta divisão da Rússia, a Football National League 2B, com o Shakhtar falsificado liderando a divisão e ameaçando legitimar sua existência através do sucesso em campo. A carta da UAF, enviada em outubro de 2025, pedia que a UEFA esclarecesse o status legal desses clubes e tomasse medidas, mas o órgão regulador permaneceu visivelmente em silêncio.
O verdadeiro Shakhtar Donetsk é uma instituição histórica, tendo acabado de garantir seu 16º título da Premier League ucraniana e garantido vaga na próxima fase de grupos da Liga dos Campeões. O Zorya Luhansk também é um competidor consolidado na primeira divisão. Ambos os clubes foram deslocados pela invasão russa de 2014 e subsequente ocupação de partes do leste da Ucrânia, forçando-os a se realocar e reconstruir suas identidades dentro do território controlado pela Ucrânia. Seu sucesso é um testemunho de resiliência, mas seus nomes e histórias estão agora sendo explorados por entidades apoiadas pela Rússia.
Em março de 2026, equipes de imitação com os nomes e apropriando-se do legado de Shakhtar e Zorya entraram no sistema profissional russo. O falso Shakhtar, sediado na cidade russa de Taganrog, mas listando um endereço no Donetsk ocupado, recebeu uma licença e foi colocado diretamente no Grupo 1 da Liga 2B. Desde então, venceu sete de seus nove jogos, liderando a tabela e almejando o acesso à terceira divisão. Seu site comemora descaradamente o 90º aniversário do clube, roubando a história real do Shakhtar. Enquanto isso, o 'Zarya Luhansk' joga em Kamensk-Shakhtinsky, mas treina no Luhansk ocupado, tendo sido promovido sem merecimento esportivo.
Não é um incidente isolado. O Rubin Yalta e o FC Sevastopol, baseados na Crimeia, foram incorporados às competições russas há três anos, e a UEFA reconheceu na época que estava 'avaliando a situação'. No entanto, nenhum resultado tangível ou ação disciplinar foi anunciado. A expansão para incluir falsos clubes de Donetsk e Luhansk sugere uma anexação deliberada e progressiva do futebol ucraniano pela Rússia, com a inércia da UEFA efetivamente permitindo-a.
A carta da UAF de outubro de 2025, endereçada ao secretário-geral da UEFA, Theodore Theodoridis, argumentou que a participação de clubes registrados na Ucrânia ocupada sem o consentimento da UAF constitui uma violação direta da jurisdição territorial. Alertou que se tratava de uma 'tentativa política coordenada para legitimar a ocupação e apagar a identidade do futebol ucraniano'. A carta solicitava uma investigação, uma explicação oficial do status legal dos clubes e um relatório à UAF. Até o momento, nenhuma resposta foi recebida.
A União de Futebol da Rússia (RFU) afirmou anteriormente que a Liga 2B é uma competição amadora não sob seu controle direto. No entanto, investigações do The Guardian no ano passado revelaram que clubes dessa divisão operam com estruturas profissionais, e o próprio site do Shakhtar de imitação descreve a liga como 'profissional'. O presidente do clube, Igor Petrov, declarou publicamente sua ambição de chegar 'à elite do futebol russo', minando ainda mais a pretensão amadora. Essa ambiguidade permitiu que a UEFA evitasse confronto, já que a RFU continua membro pleno da UEFA e da FIFA, apesar de as seleções e clubes russos estarem banidos de competições internacionais.
A situação representa uma ameaça profunda à integridade do futebol europeu. Ao permitir que esses clubes compitam, a UEFA corre o risco de estabelecer um precedente onde associações nacionais podem absorver equipes de territórios ocupados sem consequências. O futebol ucraniano, já golpeado pela guerra e deslocamento, enfrenta o apagamento de seus clubes históricos e a legitimação de um sistema paralelo que efetivamente branqueia a anexação russa. O silêncio de Nyon deixa a UAF isolada, forçada a assistir sua soberania esportiva sendo desmantelada em tempo real.
A seleção e os clubes da Rússia estão suspensos de todas as competições da UEFA e FIFA desde 2022, após a invasão em grande escala. No entanto, a continuidade da filiação da RFU a esses órgãos lhe concede uma aparência de legitimidade. A falha da UEFA em agir sobre os clubes falsos sugere uma relutância preocupante em confrontar Moscou além das proibições existentes, talvez temendo mais repercussões diplomáticas ou desafios legais. Quando contatada, a UEFA recusou-se a comentar, uma postura que diz muito sobre suas prioridades atuais.
Para o verdadeiro Shakhtar e Zorya, a presença de clubes impostores é um golpe emocional, mas também prático. Isso turva as águas em relação a contratos de jogadores, desenvolvimento juvenil e direitos comerciais. Se o falso Shakhtar subir, poderá eventualmente entrar no mesmo ecossistema de competições que a elite europeia, criando cenários absurdos onde dois 'Shakhtar' existem em bancos de dados oficiais. De forma mais ampla, cada partida disputada por essas equipes confere legitimidade incremental à ocupação russa, transformando o futebol em uma ferramenta de guerra híbrida.
O apelo da UAF sublinha uma crise crescente na governança esportiva: como proteger a integridade da competição quando uma associação membro se envolve em predação sistemática. A inação da UEFA não é mero atraso burocrático; é uma decisão que permite a erosão constante da identidade futebolística de uma nação membro. Enquanto os jogadores do falso Shakhtar comemoram gols e vitórias, os verdadeiros campeões se preparam para a Liga dos Campeões, um lembrete severo do que resta e do que está sendo roubado. Baseado em reportagem do The Guardian.