O Tottenham Hotspur viaja para Stamford Bridge sabendo que uma vitória — ou mesmo um empate, dada sua superioridade no saldo de gols sobre o West Ham — garantiria matematicamente seu status na Premier League por mais uma temporada. Para o Chelsea, décimo colocado após uma campanha decepcionante coroada por uma derrota na final da FA Cup, estragar essa festa de sobrevivência ofereceria um raro momento de satisfação em um ano turbulento. O palco está montado para mais um capítulo em uma rivalidade que remonta a mais de um século, definida por decisões de rebaixamento, desgosto em finais de copa e uma das partidas mais infames do futebol inglês moderno.
A animosidade entre esses clubes remonta a 1910, quando o Tottenham derrotou o Chelsea no último dia para rebaixá-lo da Primeira Divisão. Seis décadas depois, a primeira final da FA Cup totalmente londrina em 1967 aprofundou as feridas, com as ex-estrelas do Chelsea Jimmy Greaves e Terry Venables desempenhando papéis cruciais na vitória do Spurs em Wembley. O autor Mark Meehan, que escreveu extensivamente sobre o Chelsea, observa que o ódio mútuo é transmitido através de gerações de torcedores: "É uma rivalidade impulsionada pelos fãs… a tensão se construiu entre os torcedores, em vez de ser baseada na geografia". A temporada de 1975 adicionou combustível quando o Chelsea, sob o comando de Eddie McCreadie, perdeu por 2 a 0 em casa para o Spurs em uma partida marcada por violência da multidão, selando efetivamente outro rebaixamento.
A superioridade moderna do Chelsea sob Roman Abramovich transformou a dinâmica. Entre 1990 e 2006, eles ficaram 16 anos invictos contra o Spurs na liga, ganhando do campo visitante o apelido depreciativo de "Three Point Lane". Mesmo enquanto o Tottenham colecionava mais troféus antes da aquisição de Abramovich, o novo poderio financeiro e os títulos do Chelsea mudaram os direitos de zombaria claramente para o oeste de Londres.
As finais da Copa da Liga adicionaram mais camadas. Em 2008, uma reação inspirada por Didier Drogba ficou aquém quando o Spurs levantou o troféu no novo Wembley; sete anos depois, o Chelsea se vingou com uma vitória por 2 a 0 na mesma competição. No entanto, nada iguala a ferocidade da "Batalha da Ponte" em maio de 2016. Com a impressionante candidatura ao título do Leicester City dependendo de o Spurs perder pontos, o Chelsea se entrincheirou depois de estar perdendo por dois gols. Um sensacional empate de Eden Hazard desencadeou o caos em Stamford Bridge. A partida degenerou em caos: o Tottenham estabeleceu um recorde da Premier League com nove cartões amarelos, e o meio-campista Moussa Dembélé recebeu uma suspensão retroativa de seis jogos por cutucar o olho de Diego Costa. O técnico interino Guus Hiddink foi derrubado nas confusões pós-jogo. Para os torcedores do Chelsea, continua sendo um momento definidor, não por qualquer troféu, mas porque negou ao Spurs o título.
"Em todos os anos que vi ganharmos finais de copa e ligas… nunca vi nem ouvi uma reação como aquela, simplesmente porque estava impedindo o Spurs de ganhar a liga", disse o podcaster Daniel Childs. "Esses jogos sempre têm os melhores ambientes da temporada". O fã do YouTube Louis Beneventi, cuja primeira experiência em uma final de copa foi a derrota em 2008, admite que a rivalidade o motiva mais do que qualquer outra. "Todos os torcedores do Chelsea gostam de rir do Tottenham… Queremos que os resultados estejam a nosso favor e que eles estejam à beira do rebaixamento no último dia".
Nesta temporada, a turbulência em Stamford Bridge deixou os torcedores desconectados tanto dos proprietários quanto dos jogadores. A derrota na final da FA Cup aprofundou a tristeza, mas a nomeação no domingo de Xabi Alonso como treinador principal injetou otimismo cauteloso. O Chelsea ainda tem rotas matemáticas improváveis para terminar em sexto e se infiltrar na Europa; mais realisticamente, o oitavo ou nono lugar pode trazer uma vaga na Conference League, embora o clube insista que tratará qualquer competição continental com seriedade apesar das restrições de gastos da UEFA em andamento. No entanto, a motivação real é mais sombria: arrastar o Tottenham para mais perto do rebaixamento. Uma derrota do Spurs aqui os deixaria precisando de um resultado no último dia contra o Everton, com um custo estimado de £250 milhões por cair para o Championship pairando sobre o clube.
Desde a era Abramovich, o Spurs venceu apenas uma vez em Stamford Bridge na liga, uma estatística miserável que os torcedores do Chelsea estão desesperados para preservar. O ritual pré-jogo de "The Liquidator" novamente acompanhará um coro de "nós odiamos o Tottenham", independentemente do adversário, mas desta vez o alvo está no banco visitante. Para uma base de fãs faminta por alegria, unir-se para aprofundar a miséria do Spurs oferece um bálsamo temporário. Como um torcedor disse: "Aumentar a miséria do Spurs será um unificador".
A história sugere que neste confronto, forma e posições na liga importam pouco. Com um século de queixas e uma batalha de sobrevivência na Premier League adicionando altas apostas, Stamford Bridge sediará mais do que um jogo de meio de tabela - será o palco da última rodada de uma partida de rancor que continua definindo ambos os clubes.
Baseado em reportagens da BBC Sport.