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Como o isolamento de 30 dias do México busca repetir a

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México isola seleção por 30 dias antes da Copa de 2026, retirando jogadores dos playoffs da Liga MX, visando replicar a união que levou às quartas de final de

Em janeiro de 1986, um grupo de futebolistas mexicanos subiu La Malinche, um vulcão inativo com 14.600 pés de altitude. Sob o comando do técnico sérvio Bora Milutinović, eles correram em meio a neblina densa, ofegaram no ar rarefeito e tremeram de frio intenso. O extenuante acampamento foi mais que condicionamento físico; foi um cadinho de sofrimento compartilhado que forjou um vínculo inquebrável. Aquele time tornou-se uma família, e sua união impulsionou o México à sua melhor campanha conjunta em Copas — as quartas de final em casa. Quarenta anos depois, com o torneio de 2026 novamente em solo mexicano, o técnico da seleção nacional, Javier Aguirre, aposta em uma receita semelhante: isolamento e luta coletiva para reacender a velha magia.

Aguirre, que jogou com Milutinović em 1986, convenceu a Federação Mexicana de Futebol a retirar uma dúzia de jogadores de seus clubes durante a fase decisiva dos playoffs da Liga MX. O resultado é um confinamento de 30 dias, com os jogadores selecionados primeiro fazendo repouso forçado e depois treinando no Centro de Alto Rendimento da Cidade do México antes do pontapé inicial da Copa em 11 de junho. A medida ecoa a decisão controversa de Milutinović em 1985 de retirar jogadores de seus clubes por um ano inteiro, período que o México usou para excursionar pelo mundo e jogar mais de 20 amistosos. Embora o isolamento atual seja muito mais curto, gerou um debate acalorado sobre o custo para a competição doméstica e a preparação da seleção.

O impacto imediato atingiu duramente a Liga MX. As Chivas de Guadalajara, conhecidas por escalar apenas jogadores mexicanos, perderam cinco titulares para a seleção, desfalcando efetivamente seu time. Elas caíram na semifinal para o Cruz Azul, que só cedeu o meia Érik Lira. A final, vencida pelo Cruz Azul sobre o Pumas, foi amplamente criticada como um evento sem graça, desprovido de estrelas. Torcedores dos clubes afetados expressaram raiva, sentindo que a integridade do clímax da temporada foi sacrificada por uma aposta incerta na Copa. A saída de figuras-chave tornou os playoffs um mero detalhe, ofuscados pelo que um analista chamou de 'evento sem graça'.

O ex-goleiro mexicano Félix Fernández, hoje analista da ClaroSports, deu voz aos céticos. 'Acho que não há melhor maneira para um jogador de seleção chegar à Copa do que depois de jogar nos [playoffs], porque essas são as partidas mais intensas e exigentes', argumentou, reconhecendo que riscos de lesão existem em qualquer cenário. Fernández também lamentou a mudança cultural dos futebolistas modernos, apontando para salários altíssimos que afastam os jogadores da realidade e um ambiente de vestiário onde a camaradagem foi 'grandemente diminuída'. 'O jogador de hoje está constantemente no celular, vendo séries e filmes', acrescentou. 'Não é como antes, quando você se reunia em um quarto com quatro ou seis para conversar. Essa falta de interação acaba afetando-os em campo'.

Milutinović, agora com 81 anos e viajando pela China, mantém-se firme em sua filosofia da velha escola. 'No meu tempo, o único jeito de conseguir algo era ficarmos juntos', disse. 'Graças a esse tempo juntos, criamos um ambiente adequado onde estávamos mentalmente preparados, e foi tão eficaz que jogamos uma Copa muito, muito bem-sucedida em 86'. Ele lembrou as duas semanas em La Malinche, onde os jogadores rastejavam de quatro, aterrorizados com as alturas, e até se perdiam na neblina — episódios que fortaleceram sua confiança mútua. No entanto, ele alertou que um mês de isolamento em 2026 é 'nada' comparado ao seu projeto de um ano, embora admita que tal abordagem é 'impossível' no futebol moderno.

Além da divisão filosófica, a seleção mexicana enfrenta questões difíceis sobre forma e condicionamento. Os dois melhores jogadores do time — o capitão do Gênova, Johan Vásquez, e o atacante do Fulham, Raúl Jiménez — carregam o fardo mais pesado, enquanto outros estão em má forma. Santiago Giménez, atacante do Milan, se recupera de uma série de lesões que secaram seu faro de gol. Os meias Edson Álvarez (Fenerbahçe), Luis Chávez (Dínamo Moscou) e o inconsistente novato Obed Vargas (Atlético de Madrid) perderam tempo significativo em seus clubes. Com apenas três partidas em força máxima jogadas este ano, a coesão que Aguirre desesperadamente espera construir no isolamento ainda não apareceu em campo.

Problemas estruturais mais profundos também ameaçam minar as ambições do México. Desde a eliminação na fase de grupos do Catar 2022 — sua pior Copa em 40 anos —, a estrutura da seleção não conseguiu resolver falhas fundamentais. A natureza insular da liga doméstica significa que jovens talentos raramente migram para os principais clubes europeus, privando os jogadores dos mais altos níveis de competição. A controversa decisão de acabar com o acesso e descenso na Liga MX removeu o instinto de sobrevivência que antes forjava competidores resilientes. Fernández não mediu palavras: 'A seleção mexicana hoje não tem nível para estar entre as 17 melhores do mundo. Decisões terríveis foram tomadas, e nada foi feito. Nunca passou pela cabeça deles que o México estava tocando o fundo do poço'.

Em meio ao pessimismo, Milutinović se agarra ao poder transformador da torcida mexicana. Ele apontou as consequências do terremoto de 1985, quando o país se uniu em torno da equipe e os impulsionou a alturas históricas. 'A torcida e tudo o mais tiveram uma enorme influência para o México alcançar aquele resultado em 86', disse. Ele também vê um lado positivo para clubes como o Chivas, cujos cinco convocados retornarão com experiência inestimável de Copa, potencialmente tornando-os um time mais forte a longo prazo. 'Para mim, o Chivas é o campeão', afirmou, enfatizando o benefício de longo prazo de expor jovens jogadores ao torneio.

Enquanto o México se recolhe a portas fechadas, o isolamento de 30 dias representa uma aposta calculada. É um retorno a uma era romantizada de trilhas em montanhas e sofrimento compartilhado, mas chega em um mundo de contratos multimilionários e isolamento digital. Se Aguirre conseguirá forjar um time a partir de partes díspares em um mês continua sendo a questão central que paira sobre as esperanças do Tri na Copa. Se os ecos de 1986 devem ressoar novamente, eles terão que superar não apenas o ceticismo de uma nação, mas as duras realidades de um esporte que mudou irreconhecivelmente. Baseado em reportagens do The Guardian.