Enquanto os Estados Unidos se preparam para co-sediar a Copa do Mundo de 2026, grande parte da narrativa se concentra na era moderna — a ascensão da MLS, o 'chute ouvido ao redor do mundo' em 1989 e as sequências de classificação. Mas a história da Copa do Mundo dos EUA remonta ao primeiro torneio em 1930, e esses primeiros capítulos são repletos de lesões horríveis, um assassinato brutal e um herói que simplesmente desapareceu. Esses contos esquecidos revelam uma base mais profunda, mais rica — e muitas vezes trágica — para o futebol americano.
A Copa do Mundo de 1930 no Uruguai viu os EUA alcançarem seu melhor resultado: uma aparição nas semifinais. Mas o custo foi alto. Naquela semifinal contra a Argentina, lesões devastaram o lado americano. O goleiro Jimmy Douglas jogou com um joelho torcido. O meio-campista Ralph Tracy fraturou a perna direita e perdeu todo o segundo tempo. Mais perturbadoramente, o atacante Andy Auld ficou temporariamente cego quando o fisioterapeuta da equipe, Jack Coll, deixou cair uma garrafa de clorofórmio enquanto tratava seu lábio rachado. Sem substituições permitidas, os EUA lutaram bravamente, mas sofreram três gols no final para perder por 6 a 1. Foi uma lição brutal sobre o custo físico das primeiras Copas do Mundo.
Bert Patenaude, o atacante que marcou o primeiro hat-trick da Copa do Mundo em uma vitória na fase de grupos sobre o Paraguai, só teve seu feito reconhecido oficialmente postumamente em 2006 — 32 anos após sua morte. O segundo de seus três gols foi disputado por décadas, mas a FIFA finalmente confirmou, concedendo a Patenaude um recorde que deveria ter sido seu desde o início.
Quatro anos depois, na Copa do Mundo de 1934 na Itália, os EUA se classificaram por pouco ao derrotar o México por 4 a 2 em um playoff realizado em Roma. Todos os quatro gols foram marcados por Aldo 'Buff' Donelli, que mais tarde se tornou técnico da NFL. A equipe então caiu por 7 a 1 para os eventuais campeões, a Itália. O técnico daquela equipe de 1934 era Elmer Schroeder, um veterano da equipe técnica de 1930 e o primeiro presidente nascido nos EUA da Associação de Futebol dos Estados Unidos. A história de Schroeder tomou um rumo sombrio em 1953, quando seu corpo gravemente espancado foi encontrado amarrado com cordas de persiana em seu apartamento na Filadélfia. Embora ninguém tenha sido condenado, historiadores acreditam que ele foi vítima de um assassino em série que tinha como alvo homens gays na cidade.
Talvez a história mais comovente pertença a Joe Gaetjens, o atacante nascido no Haiti que marcou o único gol na impressionante vitória dos EUA por 1 a 0 sobre a Inglaterra na Copa do Mundo de 1950 — uma das maiores zebras da história do futebol. Gaetjens nunca obteve cidadania americana e retornou ao Haiti após o torneio. Quando François 'Papa Doc' Duvalier tomou o poder na década de 1950 e depois se declarou ditador vitalício em 1964, a família de Gaetjens fugiu, mas ele ficou, com pouca participação na política. Ele logo foi preso pela polícia secreta de Duvalier, os Tonton Macoute, e nunca mais foi visto. Acredita-se que ele foi executado na prisão de Fort Dimanche, mas seu corpo nunca foi encontrado. O homem que marcou o gol mais famoso da história dos EUA simplesmente desapareceu.
A era moderna da história da Copa do Mundo dos EUA começou para valer em 19 de novembro de 1989, quando Paul Caligiuri marcou um espetacular voleio de canhota de 30 jardas contra Trinidad e Tobago em Porto da Espanha. O gol — apelidado de 'o chute ouvido ao redor do mundo' — garantiu uma vitória por 1 a 0 e a classificação para a Itália '90, encerrando um jejum de 40 anos na Copa do Mundo. Essa classificação foi vista como essencial para a credibilidade dos EUA enquanto se preparavam para sediar a Copa do Mundo de 1994. A equipe perdeu todos os três jogos na Itália, mas o caminho estava traçado: os EUA se classificaram para todas as Copas do Mundo desde então, exceto 2018.
Essas histórias — de lesão, assassinato, desaparecimento e redenção — nos lembram que a narrativa da Copa do Mundo dos EUA não é apenas sobre crescimento e comercialização. Ela é tecida com fios de tragédia e resiliência. Enquanto os torcedores americanos olham para o torneio de 2026 em casa, homenagear essas figuras esquecidas adiciona profundidade à celebração. Eles são os fantasmas que moldaram o jogo.
As lesões da semifinal de 1930 destacam como o jogo era diferente antes das substituições. O assassinato do técnico Elmer Schroeder revela uma corrente obscura de violência que tocou o esporte. O desaparecimento de Joe Gaetjens serve como um lembrete vívido do terror político. E o gol de Paul Caligiuri marca o ponto de virada onde os EUA começaram sua ascensão constante como participante regular da Copa do Mundo.
Esses momentos negligenciados merecem ser lembrados, não apenas como notas de rodapé, mas como capítulos essenciais na história do futebol americano. Com a aproximação da Copa do Mundo de 2026, o passado oferece perspectiva para o futuro.
Baseado em reportagens do Football | The Guardian.