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Dentro da ocupação de décadas na rua mais exclusiva de São

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Um olhar dentro do prédio ocupado por quase 20 anos na Rua Oscar Freire, o distrito de compras de luxo de São Paulo, revela uma cena de decadência e contraste

Um edifício em um dos endereços mais valiosos de São Paulo foi desocupado após quase duas décadas de ocupação, deixando um retrato nítido da decadência urbana. Localizado na esquina da Rua Oscar Freire com a Rua Peixoto Gomide, no bairro nobre dos Jardins, o imóvel foi alvo de uma reintegração de posse ordenada pela justiça que retirou 33 famílias.

O despejo, realizado pacificamente pela Polícia Militar em uma quarta-feira, seguiu uma ordem judicial motivada por laudos técnicos que alertavam para grave degradação estrutural e risco iminente de desabamento. A Defesa Civil da cidade reforçou a necessidade urgente de remoção dos ocupantes. Autoridades do governo municipal de São Paulo afirmaram que as 33 famílias cadastradas já estavam recebendo auxílio aluguel e sendo apoiadas pela rede de assistência social municipal.

Um dia após a operação, o interior do prédio apresentava um quadro sombrio, muito distante das butiques de luxo e restaurantes sofisticados que margeiam a rua lá fora. O ar estava carregado de cheiro de urina. Lá dentro, as paredes estavam cobertas de mofo e sujeira, os pisos de madeira estavam quebrados e os tetos de alguns apartamentos tinham grandes buracos. Trabalhadores que limpavam o local relataram ter encontrado ratos e até fezes humanas em alguns cômodos.

Apesar da profunda deterioração, pertences pessoais espalhados pelas unidades serviram como um lembrete comovente de que dezenas de famílias chamavam este lugar de lar apenas um dia antes. Itens deixados para trás incluíam um dinossauro de papel, roupas descartadas, um quadro emoldurado, um relógio de parede, um boneco de neve de pelúcia, um varal e até um DVD da banda Queen. Um banheiro continha uma banheira, um item de luxo agora totalmente fora de lugar no ambiente arruinado.

A conturbada história do edifício começou em 2004, quando uma imobiliária, a Santa Alice Empreendimentos Imobiliários, tentou comprar todos os apartamentos para desenvolver um projeto de luxo. Dois proprietários minoritários se recusaram a vender. De acordo com registros judiciais, a empresa, que detinha a maioria das unidades, aprovou taxas de condomínio de cerca de R$ 7.000 e depois supostamente incentivou uma ocupação inicial para pressionar os resistentes. O edifício subsequentemente caiu em desuso, foi condenado pela prefeitura e ficou vazio por cinco anos.

Depois de ser desocupado em 2013, o imóvel teve múltiplas ondas de ocupação. Em 2015, a União dos Sem Teto assumiu o prédio, mas saiu meses depois após uma ordem judicial. No ano seguinte, aproximadamente 120 pessoas, realocadas de uma ocupação no Alto de Pinheiros, se mudaram. Eles afirmaram não ter vínculo com movimentos organizados de moradia. Moradores da época falaram sobre enfrentar preconceito por viver em uma ocupação na prestigiosa Oscar Freire. "Os moradores dos Jardins têm um padrão social sofisticado, aristocrático e nos olham como se fôssemos uma atração de circo", disse um ocupante, designer, ao g1 em 2017.

Na tentativa de amenizar a hostilidade da vizinhança, moradores certa vez colaram páginas de revistas de moda nas paredes da entrada do prédio, como uma espécie de cartaz artístico de rua. Por outro lado, comerciantes e moradores locais reclamavam do lixo, barulho e forte odor que emanavam do imóvel. Um instrutor de fitness que trabalha em uma academia vizinha há mais de cinco anos viu o despejo de forma positiva, chamando a situação de "uma bagunça" e expressando alívio. Um vendedor ambulante que trabalhava no semáforo próximo relatou ver frequentemente suspeitos de roubo correndo para dentro do prédio, mencionando rumores de que uma bicicleta de R$ 40.000 foi roubada e levada para lá.

Após o despejo, trabalhadores foram vistos concretando janelas e pontos de acesso para impedir a reentrada. A pessoa responsável pela limpeza relatou ter gasto aproximadamente R$ 30.000 até agora e criticou a falta de apoio do governo municipal. Curiosos em carros, motos e a pé diminuíram a velocidade para observar a reforma improvisada e refletir sobre o futuro do imóvel depois de tantos anos de conflito e abandono. O g1 tentou contatar a família proprietária do prédio para saber seus planos para o local, mas não obteve resposta até o momento da publicação. Baseado em reportagem do g1.