O pinhão engorda? Essa é uma pergunta comum sobre a semente da araucária, que é consumida há séculos por povos indígenas por sua capacidade de sustentá-los durante períodos mais frios. Para esclarecer isso, a nutricionista Kassia Milena de Oliveira explica que a resposta é sim e não — tudo depende da quantidade consumida e de como é preparado. Hoje, essa semente se tornou um item cultural, e com a chegada do inverno, começa a aparecer em mercados, supermercados e barracas de rua em todo o sul do Brasil, onde se concentra 70% da produção nacional. O estado do Paraná é o maior produtor, respondendo por mais de uma em cada três toneladas colhidas em todo o país.
O pinhão é a semente da Araucaria angustifolia, uma árvore nativa da Mata Atlântica. É consumido principalmente no sul do Brasil durante os meses de inverno e é colhido da pinha, com coleta permitida apenas em períodos específicos por lei. Uma pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em 2018 analisou a composição nutricional de amostras de pinhão de várias localidades, comparando versões cruas e cozidas. Os resultados revelaram diferenças no teor de nutrientes devido ao cozimento, onde alguns elementos se concentram enquanto outros se perdem na água.
Segundo a nutricionista, o pinhão é um dos alimentos mais funcionais e nutritivos que existem. Ela observa que, para obter todos os nutrientes que o pinhão oferece, seria necessário comer vários alimentos diferentes combinados. O alto valor calórico e nutricional é atribuído à 'inteligência' da natureza, que fornece esses alimentos no inverno porque o corpo precisa de mais energia no frio. Além disso, o pinhão oferece maior saciedade em comparação com outros alimentos calóricos. Seu alto teor de fibras, incluindo os chamados 'amidos resistentes', leva muito mais tempo para digerir do que algo como pão com um teor calórico semelhante. Isso significa que o pinhão permanece mais tempo no intestino, aumentando a sensação de saciedade.
A nutricionista destaca vários outros benefícios do pinhão. Ele contém ácido pinolênico, um composto único desta semente que estimula o hormônio colecistocinina, auxiliando na saciedade e digestão, além do GLP-1, que aumenta ainda mais a saciedade. A semente também é rica em zinco, cobre e alguma vitamina C, apoiando a função imunológica. Seu alto teor de potássio ajuda a controlar a pressão arterial. A concentração significativa de magnésio pode auxiliar pessoas que sofrem de dores articulares, fibromialgia e até lapsos de memória. Além disso, a luteína antioxidante presente no pinhão ajuda a proteger o sistema ocular, particularmente durante o processo de envelhecimento. Como uma oleaginosa, é rica em ácidos graxos ômega-3 e ômega-9, e nenhum outro alimento da família das nozes tem um potencial tão alto de minerais e amidos resistentes para a saúde intestinal.
Para quem deseja incluir o pinhão na dieta, a nutricionista aconselha que seu valor calórico representa um lanche ou a porção de carboidratos das refeições principais em uma dieta diária de 1.200 calorias. A quantidade recomendada é de 100 gramas — equivalente a um punhado, uma colher de servir, ou cerca de 10 sementes, dependendo do tamanho, com o peso calculado incluindo a casca. Para reduzir as calorias, o melhor é cozinhar o pinhão e comê-lo puro, sem adições como manteiga, bacon ou mandioca. Devido ao seu teor de amido resistente, o pinhão não causa picos de glicose que levam à fome, tornando-o útil para aumentar a saciedade entre as refeições.
O momento ideal para consumir esse lanche é dentro de 2 a 3 horas antes ou depois de uma refeição. Por exemplo, se você costuma chegar em casa com muita fome por volta das 18h, sugere-se comer pinhão por volta das 15h, pois ainda estará no seu sistema gastrointestinal, ajudando a retardar o esvaziamento gástrico. No entanto, a nutricionista alerta que, apesar de seus benefícios para as bactérias intestinais, o pinhão também pode causar gases. Para reduzir isso e melhorar a absorção de minerais, ela recomenda deixar as sementes de molho por 8 a 12 horas antes de cozinhar e depois descartar a água do molho para minimizar antinutrientes como fitatos e taninos.
Com base em reportagem do g1.