Em suas primeiras declarações públicas desde que deixou o KS Cracovie, o técnico esloveno Luka Elsner revelou o caos extraordinário que envolveu o clube polonês, insistindo que sua saída foi um acordo mútuo, não uma demissão. Em entrevista ao L'Equipe, o treinador de 43 anos descreveu uma série de eventos tão surreais que a mídia polonesa apelidou o time de 'o cabaré', com novos dramas a cada semana. Sua saída, apenas dez meses após assinar um contrato de dois anos, expõe profundas fraturas dentro de um clube que agora luta pela sobrevivência na Ekstraklasa.
Elsner chegou a Cracóvia em junho passado com sólidas credenciais, tendo comandado Amiens, Le Havre e Reims na França. O Cracovie, sexto colocado na campanha anterior, parecia oferecer a estabilidade que ele desejava após uma turbulenta passagem pelo Reims. "Eu queria essa estabilidade", disse. Por alguns meses, o projeto foi promissor. O clube estava bem posicionado na tabela e competia por vaga europeia. Mas o ponto de virada veio abruptamente em 7 de janeiro, quando o presidente Mateusz Drozdz — o homem que contratou Elsner — foi demitido logo no primeiro dia da pré-temporada de inverno. "Por quê? Não faço ideia", admitiu Elsner.
O vácuo de poder se aprofundou quando a acionista minoritária Elżbieta Filipiak retornou como presidente após a venda no verão ao investidor americano Robert Platek. Seu mandato seria curto. "A partir de 15 de janeiro, a história começou a cheirar muito mal", lembrou Elsner. O elenco foi dizimado: o atacante estrela Filip Stojilković foi vendido ao Pisa por €3 milhões, o vice-capitão o seguiu, e o capitão do clube foi afastado por uma grave lesão no tendão de Aquiles. As contratações planejadas nunca se concretizaram, deixando Elsner com apenas 14 ou 15 jogadores para enfrentar a segunda metade da temporada. O projeto esportivo pelo qual ele havia assinado desmoronou.
À medida que os resultados começaram a piorar, a turbulência extracampo se intensificou. Dentro de um mês, a presidente Filipiak renunciou em meio a uma disputa com o acionista majoritário, deixando o Cracovie sem presidente ou diretor esportivo. "Nos encontramos em uma espécie de caos incontrolável", disse Elsner. Ele se ofereceu para renunciar em março, disposto a sair sem compensação, mas o proprietário pediu que ficasse. Os resultados continuaram piorando, e o ridículo da mídia aumentou. "A mídia polonesa nos chamava de cabaré — toda semana havia um novo show", revelou Elsner, referindo-se a uma temporada de constantes transtornos.
O fim veio após uma derrota por 4 a 1 para o Raków em meados de abril. Elsner disse ao novo diretor de futebol do clube: "Isso será uma luta até o fim. Minha oferta de renúncia ainda está sobre a mesa". Desta vez, o clube aceitou. A saída foi formalizada como um acordo mútuo, e Elsner saiu sem nenhum acordo financeiro — um gesto que se sentiu obrigado a honrar após sua promessa anterior. O Cracovie agora está a apenas dois pontos acima da zona de rebaixamento, com suas ambições europeias há muito esquecidas.
Olhando para trás, Elsner expressa profundo arrependimento. Em outubro e novembro, ele havia rejeitado quatro projetos concretos, incluindo um da MLS, porque acreditava na estabilidade do Cracovie. "Dois meses depois, essa estabilidade pode ser jogada pela janela", lamentou. A experiência o forçou a questionar seu próprio julgamento, especialmente após a curta passagem pelo Reims no início de 2025. "Nunca vivi nada parecido", disse. "É uma história surpreendente. Como antecipar uma reviravolta tão completa?"
Para o Cracovie, a saga é um conto de advertência sobre má gestão. O clube passou de um candidato estável à metade superior da tabela para uma luta contra o rebaixamento em questão de semanas, devastado pelo caos na diretoria, saídas de jogadores-chave e lesões. A saída sem cerimônia de Elsner — mútua ou não — destaca a natureza precária do trabalho de treinador em ambientes onde a instabilidade extracampo envenena o progresso esportivo. Enquanto avalia seu próximo passo, o esloveno esperará que sua carreira não seja definida por um padrão de passagens curtas e caóticas. Baseado em reportagem do L'Equipe.