Faltando apenas uma semana para o início da Copa do Mundo de 2026, a promessa de longa data da FIFA de um torneio completamente esgotado colide com uma realidade gritantemente diferente. O presidente Gianni Infantino declarou em fevereiro que "todas as partidas já estão esgotadas", mas milhares de ingressos permanecem disponíveis em várias plataformas, e os preços de jogos menos desejáveis caíram bem abaixo do valor de face. A desconexão entre a mensagem oficial e os dados reais gerou acusações de má gestão, precificação secreta e até mesmo uma investigação em nível estadual sobre as práticas de venda de ingressos da FIFA.
A análise da BBC Sport revela que, em um sábado recente, quase 74.000 ingressos foram listados em 86 das 104 partidas da fase de grupos - dificilmente a imagem de um evento esgotado. No meio da semana, esse número oscilou drasticamente, caindo para 22.000 antes de saltar para 37.000, sugerindo que há mais do que apenas a demanda natural dos torcedores em jogo. Particularmente em dificuldades estão as partidas que envolvem nações futebolísticas menores, como Bósnia-Herzegovina vs Catar, Cabo Verde vs Arábia Saudita e Congo DR vs Uzbequistão, onde blocos inteiros de assentos permanecem não vendidos nos canais oficiais.
A raiz do caos está na estratégia de preços opaca e aparentemente errática da FIFA. Durante o sorteio inicial e mesmo nas fases de venda subsequentes, nenhuma estrutura de preços abrangente foi publicada. Fãs que inseriram seus dados de pagamento cegamente descobriram o custo apenas quando foram cobrados, muitas vezes para seu choque. Como alegaram os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey em sua intimação, a FIFA "inflacionou artificialmente os preços" e "enganou os fãs" ao reter informações críticas, depois inserindo novas categorias de ingressos mais caros nos mapas dos estádios sem aviso.
A investigação, lançada oficialmente na semana passada, visa desvendar um processo que um documento legal comparou a um jogo de "colocar o rabo no burro". De acordo com os procuradores-gerais, alguns torcedores foram cobrados por assentos de nível superior apenas para receber ingressos em categorias inferiores, mais afastados da ação. A intimação exige que a FIFA explique como determinou seus preços e por que os fãs foram mantidos no escuro por tanto tempo. A FIFA, como é seu hábito ao longo deste ciclo de vendas, não respondeu aos pedidos de comentários.
Aumentando a confusão está o inventário mutável nos mercados oficial e secundário. O próprio portal de revenda da FIFA - onde acrescenta uma taxa de 15% tanto do comprador quanto do vendedor - mostra milhares de ingressos a valor de face, mas a disponibilidade misteriosamente caiu pela metade em questão de horas no último fim de semana, apenas para se recuperar dias depois. O monitoramento independente pela TicketData indica que, à medida que esses ingressos desapareciam do site da FIFA, um aumento semelhante apareceu no SeatGeek, uma plataforma secundária com a qual a FIFA afirma não ter parceria.
O padrão dessas listagens do SeatGeek aprofunda o mistério. Em vez de assentos únicos aleatórios, lotes de ingressos apareceram em fileiras contínuas com preços incrementais - cada fileira alguns dólares mais cara que a anterior - com preços bem abaixo do valor de face. Para uma partida de baixa demanda como Congo DR vs Uzbequistão, fileiras de ingressos atrás do gol foram oferecidas entre $250 e $296, significativamente menos do que o valor de face oficial de $380. Observadores questionaram se essa precificação estruturada sugere um vendedor institucional deliberado descarregando inventário.
Embora o SeatGeek tenha negado qualquer acordo direto com a FIFA, isso não impede a possibilidade de que o órgão regulador ou um de seus parceiros comerciais esteja usando a plataforma de forma independente. O mesmo comportamento errático foi observado no StubHub e no VividSeats, onde as listagens se multiplicam mesmo enquanto a FIFA alerta que ingressos comprados fora dos canais oficiais podem ser cancelados.
Os riscos financeiros e de reputação são enormes. Assentos vazios em uma Copa do Mundo - o evento esportivo mais assistido do planeta - seriam um constrangimento evidente, particularmente depois que a FIFA precificou muitas partidas da nação anfitriã em níveis de luxo. Apenas duas das nove partidas com EUA, Canadá ou México estão oficialmente esgotadas; a partida de abertura entre México e África do Sul ainda tem mais de 500 assentos disponíveis a $2.273 cada. Para confrontos menos prestigiosos, a disparidade entre o preço aspiracional da FIFA e a disposição dos fãs em pagar criou um excedente de estoque não vendido.
Analistas alertam que a abordagem da FIFA corre o risco de repetir a Copa do Mundo de Clubes de 2025, onde os ingressos foram eventualmente descartados a preços reduzidos para encher os estádios. Já os preços no mercado secundário para os jogos de nível inferior da Copa caíram, com alguns assentos sendo vendidos por um terço abaixo do custo oficial. Essa dinâmica não apenas mina a narrativa de "esgotado" de Infantino, mas também lança dúvidas sobre a capacidade da FIFA de gerenciar um torneio de 48 equipes e três nações sem seções vazias visíveis.
A investigação pelos procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey pode forçar a tão esperada transparência. Como observou um observador citado no relatório da BBC: "O processo de compra de ingressos tem sido como um jogo de colocar o rabo no burro, onde você não sabe quanto custa jogar". Até que a FIFA dê respostas claras, a última semana antes do apito inicial será marcada pela incerteza e pelo espectro de arquibancadas meio vazias.
Com base em reportagem da BBC Sport.