A tão esperada reforma da governança do futebol francês encontrou outro obstáculo, já que o projeto de lei que dissolveria a Ligue de Football Professionnel (LFP) e a substituiria por uma empresa controlada pelos clubes continua preso em um limbo legislativo. Inicialmente agendado para debate na Assembleia Nacional em 18 de maio, o projeto foi adiado para dar lugar à lei de programação militar e ainda não foi remarcado, mesmo enquanto outros textos estão previstos para discussão antes do final de junho. O atraso aumentou a ansiedade em todo o futebol profissional, com clubes e dirigentes da liga alertando para repercussões financeiras significativas.
No centro da preocupação está uma emenda que redirecionaria a receita das apostas esportivas atualmente canalizada para a LFP para a Federação Francesa de Futebol (FFF). Sob a estrutura atual, a LFP recebe uma parcela do imposto nacional sobre apostas esportivas, no valor de aproximadamente €12 milhões por temporada. Esse dinheiro ajuda a financiar as operações dos clubes, o desenvolvimento de jovens e a competitividade geral da liga. A mudança proposta tiraria dos clubes uma fonte vital de receita em um momento em que muitos ainda estão se recuperando do choque econômico da pandemia de COVID-19 e do aumento dos custos operacionais.
O projeto de lei em si, aprovado pelo Senado há um ano, visa reformar a governança do futebol francês desmantelando a LFP — uma entidade conjunta que representa os interesses do estado, da federação e dos clubes profissionais — e entregando o controle total a uma "empresa de clubes". Essa nova estrutura permitiria que os clubes governassem seus próprios assuntos comerciais e de radiodifusão com maior autonomia, teoricamente simplificando a tomada de decisões e aumentando as receitas. No entanto, o texto foi fortemente alterado desde sua aprovação no Senado, criando um labirinto de interesses concorrentes e consequências não intencionais.
Uma das adições mais controversas é a cláusula de receita de apostas. Embora a intenção original fosse consolidar o poder entre os clubes profissionais, a emenda corre o risco de enfraquecê-los financeiramente ao desviar dinheiro para as missões mais amplas de amadores e base da FFF. Os críticos argumentam que remover €12 milhões anuais da pirâmide profissional prejudicaria a capacidade da liga de atrair e reter talentos, investir em infraestrutura e competir com as outras grandes ligas europeias. Para clubes menores da Ligue 1 e Ligue 2 que operam com margens apertadas, uma perda como essa pode ser devastadora.
O impasse legislativo se deve em grande parte à priorização pelo governo da lei de programação militar, um projeto abrangente de gastos com defesa que consumiu a agenda da Assembleia. Embora compreensível do ponto de vista da segurança nacional, a comunidade do futebol vê a repetida falha em agendar a reforma da governança como um sinal de indiferença política. "Este projeto está pronto há mais de um ano, mas continua sendo adiado", citou uma fonte próxima à LFP. "Cada atraso cria mais incerteza para os clubes que tentam planejar seus futuros."
Além das preocupações financeiras, a reforma também inclui medidas para combater a pirataria online de transmissões de futebol, uma prioridade chave para os detentores de direitos. No entanto, as disposições antipirataria estão vinculadas ao pacote de governança mais amplo, o que significa que, até que o projeto seja votado, os mecanismos de execução permanecem no limbo. Isso adiciona outra camada de frustração para emissoras e clubes que perdem milhões com transmissões ilegais a cada temporada.
Observadores políticos observam que a composição da Assembleia e o calendário legislativo lotado podem prolongar a espera. Com a agenda de junho já repleta de outros textos e o recesso de verão se aproximando, é cada vez mais provável que o projeto não seja debatido antes da sessão de outono, no mínimo. Isso estenderia o período de incerteza para quase dois anos desde a votação no Senado, levantando questões sobre a vontade política de aprovar uma reforma que divide profundamente as partes interessadas.
O debate também toca na relação mais ampla entre o estado e o esporte profissional na França. O governo atualmente detém uma participação na LFP através da FFF, mas a reestruturação proposta reduziria a supervisão pública — uma mudança que deixa alguns legisladores desconfortáveis. Por outro lado, muitos clubes sentem que o envolvimento do estado se tornou excessivamente burocrático e sufoca o crescimento comercial. O impasse reflete uma luta ideológica mais profunda sobre quem deve controlar as finanças do futebol.
Enquanto a espera continua, os clubes são forçados a fazer orçamentos sem clareza sobre uma linha de receita importante. Para uma liga que já está atrás da Inglaterra, Espanha e Alemanha em acordos de direitos de transmissão, a ameaça de um corte anual de €12 milhões é particularmente irritante. Alguns presidentes de clubes alertaram em particular que podem precisar vender jogadores-chave ou adiar projetos de estádios se o projeto for aprovado com a emenda de receita de apostas intacta. A LFP supostamente fez forte lobby para remover a cláusula, mas com o projeto parado na comissão, não há caminho imediato a seguir.
Enquanto isso, o futebol profissional observa nervosamente. A reforma deveria ser um catalisador para a modernização e competitividade, mas em vez disso se tornou uma fonte de divisão e angústia. Até que a Assembleia Nacional encontre tempo para abordá-la, o futebol francês permanecerá em um impasse — com os clubes esperando que a lógica prevaleça e a punitiva transferência de receita seja descartada. Com base em reportagens do L'Equipe.