A convocação de 26 jogadores do Brasil para a próxima Copa do Mundo, anunciada pelo técnico Carlo Ancelotti na segunda-feira, carrega ecos inconfundíveis do triunfo do país em 1994. Ancelotti, que fez parte da comissão técnica da Itália que perdeu para o Brasil naquela final, criou um grupo que mescla talento individual com uma base de solidez defensiva. O resultado é um elenco que sugere o ‘pragmatismo mágico’ que definiu o time campeão de Carlos Alberto Parreira há três décadas.
Este elenco depende fortemente do talento ofensivo. Nove dos 26 jogadores são listados como atacantes, um luxo possibilitado pelas convocações expandidas do torneio. Espera-se que Vinícius Júnior, a estrela do Real Madrid, assuma um fardo criativo central, enquanto Neymar retorna para sua quarta Copa do Mundo apesar de seus minutos recentes limitados. O adolescente prodígio Endrick, revitalizado após uma prolífica cessão no Lyon, ganha uma convocação surpresa, oferecendo outra dimensão a um ataque já potente que inclui Raphinha, Gabriel Martinelli e Igor Thiago.
Ancelotti, em declarações à imprensa na apresentação da convocação, deixou claro que o brilho individual por si só não será suficiente. ‘Pode não ser o grupo perfeito, mas é um grupo focado, concentrado, humilde e abnegado’, disse. ‘Minha ideia é focada no coletivo, não no individual’. Essa filosofia espelha o plano de 1994, quando a Seleção dependeu de um duplo pivô robusto no meio-campo formado por Dunga e Mauro Silva para proteger uma defesa que sofreu apenas três gols em todo o torneio.
Defensivamente, a vulnerabilidade mais evidente está nas laterais, onde as opções de Ancelotti são limitadas. Os veteranos Alex Sandro e Danilo — ambos agora no Flamengo — não são defensores naturais de classe mundial, e sua tendência a avançar pode expor os zagueiros centrais. No entanto, o coração da defesa é formidável. Marquinhos e Gabriel formam uma dupla testada na Champions League, enquanto Bremer da Juventus e Roger Ibañez do Al-Ahli oferecem cobertura experiente. O goleiro Alisson continua sendo um dos melhores do mundo, embora possa ser chamado a comandar sua área com mais frequência se os laterais forem pegos em posição adiantada.
O meio-campo, embora numericamente escasso com apenas cinco selecionados, carrega uma mistura de fibra e compostura. Casemiro, que enfrentou uma difícil temporada 2024-25 no Manchester United, reconstruiu sua reputação sob a orientação de Ancelotti, enquanto Bruno Guimarães chega após outra campanha estelar no Newcastle. Danilo Santos do Botafogo oferece energia, e a dupla veterana de Fabinho e Lucas Paquetá — este último agora no Flamengo — adiciona profundidade. Ainda assim, Ancelotti precisará gerenciar sua carga de trabalho com cuidado, dada a falta de números.
A decisão mais consequente pode ter sido a omissão de João Pedro, o atacante do Chelsea que poderia ter oferecido um perfil diferente na área. Em vez disso, Ancelotti optou pelo inspirado Igor Thiago, com Endrick e Matheus Cunha como opções alternativas de centroavante. As pontas oferecem velocidade e malícia aterrorizantes, com o adolescente ponta do Bournemouth, Rayan, pronto para se tornar uma estrela revelação.
O caminho do Brasil para a Copa do Mundo não foi nada suave. Eles perderam seis partidas eliminatórias — mais do que nos cinco ciclos classificatórios anteriores combinados — e se classificaram para o torneio por saldo de gols. No entanto, a história oferece um vislumbre de esperança: a última vez que o Brasil perdeu seis eliminatórias foi em 2002, quando acabaram levantando o troféu no Japão e na Coreia do Sul. Ancelotti apoiou-se nesse paralelo em privado, mas publicamente apontou 1994 como o modelo mais relevante: um time que teve que ralar em vez de deslumbrar.
O técnico italiano, que venceu a Champions League duas vezes com o Real Madrid antes de assumir o cargo no Brasil, admitiu que o elenco não é perfeito, mas expressou fé em seu espírito competitivo. ‘Tenho o conhecimento e a confiança de que esta equipe pode competir com as melhores do mundo’, disse. ‘Podemos vencer a Copa do Mundo e chegar à final? Sim, podemos chegar à final. Mas não sei se isso é suficiente – o melhor é chegar lá e vencer a final’.
O desafio de Ancelotti será forjar uma unidade coesa a partir de um grupo que, apesar de todas as suas riquezas ofensivas, raramente jogou junto. O técnico teve apenas dez partidas para avaliar seu elenco, e o torneio testará sua capacidade de impor uma forma disciplinada que limite riscos enquanto libera os talentos de Vinícius, Neymar e os demais. Se ele conseguir encontrar esse equilíbrio, o Brasil pode produzir uma repetição do pragmatismo alegre que cativou o mundo em 1994.
Baseado em reportagens do The Guardian.