O apito final em Leipzig confirmou não apenas um título da Conference League para o Crystal Palace, mas o fim de uma era. Oliver Glasner, que entregou três troféus importantes em 375 dias, renunciou após uma vitória por 1 a 0 sobre o Rayo Vallecano, deixando um clube transformado. Foi um clímax adequado para um período de 12 meses que oscilou entre triunfo e turbulência, reviravoltas e guerra civil e, finalmente, glória europeia.
A jornada de Glasner no Palace começou silenciosamente. Uma reunião com o presidente Steve Parish no final de 2023, organizada pelo então diretor esportivo Dougie Freedman, gerou uma nomeação improvável. O austríaco, cujo trabalho na Bundesliga por Wolfsburg e Eintracht Frankfurt impressionara, assumiu o lugar de Roy Hodgson em fevereiro de 2024. Em poucos meses, orquestrou uma vitória na final da FA Cup sobre o Manchester City, encerrando a espera de 120 anos do clube por um grande troféu.
No entanto, mal o champanhe esfriou, o desastre chegou. A UEFA decidiu que a participação de John Textor tanto no Palace quanto no Lyon, que também se classificara para a Liga Europa, violava as regras de propriedade de múltiplos clubes. As Águias foram rebaixadas para a Conference League — uma decisão que Parish chamou de "uma das maiores injustiças do futebol europeu". Um recurso ao Tribunal Arbitral do Esporte falhou, mas o time se recusou a murchar, começando a nova temporada vencendo o campeão da Premier League, Liverpool, na Community Shield em Wembley.
A turbulência, no entanto, estava prestes a escalar. O talismã Eberechi Eze partiu para o Arsenal em um negócio recorde, privando Glasner de sua força mais criativa. Então, no último dia da janela de transferências, Marc Guehi estava prestes a se juntar ao Liverpool por mais de £35 milhões — até que o Palace desistiu quando uma jogada para trazer Igor Julio do Brighton como seu substituto fracassou. Essa reviravolta, segundo relatos, levou Glasner ao limite: ele ameaçou renunciar se Parish autorizasse a venda, um sinal precoce da fricção que definiria a temporada.
Após um início promissor, o Palace mergulhou em um inverno terrível. Uma sequência de 12 jogos sem vitórias em todas as competições os fez despencar na tabela da Premier League e para fora dos oito primeiros da Conference League, forçando um play-off. O ponto mais baixo veio no início de janeiro, quando o Macclesfield, da liga não profissional, infligiu um dos maiores choques da história da FA Cup. Com o clube em crise, Glasner soltou uma bomba: ele sairia no final da temporada depois que a diretoria concordou em vender Guehi ao Manchester City, acusando os tomadores de decisão de "abandonar completamente" seu lado.
O anúncio poderia ter desencadeado uma implosão. Mas Parish, em vez de ceder à indignação, optou por manter a fé no homem que já havia entregado prata. Fontes disseram à BBC Sport que a ideia de demitir Glasner mal passou por sua mente. Isso se mostraria uma aposta decisiva. Glasner, apesar de seus surtos emocionais, reorientou o elenco e os guiou através dos play-offs da Conference League e para as rodadas eliminatórias.
Lentamente, as nuvens de tempestade se dissiparam. A coesão que tornara o Palace vencedor da FA Cup retornou. Uma sequência disciplinada na Europa criou impulso, e quando chegaram à final em Leipzig, a discórdia anterior parecia uma memória distante. A vitória por 1 a 0 sobre o Rayo Vallecano assegurou não apenas um segundo troféu europeu, mas também um lugar na próxima temporada da Liga Europa — exatamente o prêmio que a sanção da UEFA havia tirado 12 meses antes.
Glasner, sempre dramático, escolheu sua última despedida em Selhurst Park para provocar o presidente. "Agora que estou saindo, não preciso concordar com o presidente", ele sorriu. "Ele disse que o melhor dia foi a final da FA Cup, mas não concordo. O melhor dia ainda está por vir em Leipzig." A piada ressaltou o quão longe o clube chegou: de uma guerra civil a uma despedida unida e cheia de troféus.
Para os jogadores, a transformação foi profunda. O meio-campista Adam Wharton refletiu: "Ele deve ser um dos melhores treinadores que o Crystal Palace já teve. Ele fez uma diferença enorme em como o clube encara as competições. Não estamos apenas olhando para permanecer na Premier League e estar na Europa, estamos olhando para vencer e estar o mais alto possível." Ellie Killick, da fanzine Eagle Eye View, ecoou que Glasner "mudou completamente a trajetória" do clube, deslocando ambições da segurança de meio de tabela para a caça genuína a prata.
A saída de Glasner marca o fim de um capítulo volátil, mas transformador. O Palace agora opera em uma nova realidade, onde a qualificação europeia é a norma e os troféus não são mais um sonho distante. O legado do austríaco não está livre de cicatrizes — as sagas de Guehi, as ameaças de saída, a humilhação na FA Cup —, mas será lembrado por um período de 12 meses que reescreveu a história do clube. Como o próprio Glasner disse, outros bons capítulos virão, mas este foi extraordinário. Baseado em reportagens da BBC Sport.