Quando Mikel Arteta pisou na área técnica em Bournemouth no Boxing Day de 2019, o clima no Arsenal era tenso. O clube ainda se recuperava da fracassada era de Unai Emery, e a nomeação de um técnico novato de 36 anos parecia um ato de fé. A primeira temporada de Arteta foi marcada pela pandemia, mas nem uma vitória na FA Cup nem uma Community Shield conseguiram calar os críticos. No outono de 2021, vaias ecoavam no Emirates após uma derrota por 5 a 0 para o Manchester City e uma derrota vergonhosa para o Brentford. A identidade do Arsenal havia sido erodida, e muitos descartaram Arteta.
O caminho para aquela estreia no Boxing Day não foi nada suave. Conversas secretas na casa de Arteta em Manchester em dezembro de 2019 deveriam ser discretas, mas fotos vazadas para um tabloide envergonharam tanto o Arsenal quanto o Manchester City, onde Arteta era o assistente de confiança de Pep Guardiola. A hierarquia do City ficou irritada com a natureza pública da abordagem, mas o Arsenal seguiu em frente. O carisma do espanhol e um plano de cinco anos "extremamente impressionante" conquistaram a diretoria. Ele sabia que o clube estava anos atrás de seus rivais e exigiu uma reformulação total do elenco — 22 jogadores de alto nível e taticamente adaptáveis.
Essa reconstrução exigiu investimento contínuo, e aqui Arteta encontrou sua sorte. A propriedade total da família Kroenke sobre o clube, concluída após a compra da participação de Alisher Usmanov, liberou fundos que haviam sido prometidos mas duvidados. Como um ex-funcionário observou: "Mikel tinha dinheiro que Unai e até Arsène não tinham de verdade". O momento foi oportuno, mas também significava que Arteta tinha que entregar resultados. A diretoria o apoiou incondicionalmente, mesmo quando os resultados ficaram feios.
A temporada 2020-21 foi um ponto baixo. O Arsenal terminou em oitavo, sua pior colocação na liga em um quarto de século. Uma sequência de sete jogos da Premier League sem vitória em dezembro de 2020, incluindo uma derrota por 2 a 1 no Goodison Park, deixou o técnico com um pé fora para os de fora. No entanto, internamente dizem que a diretoria nunca cogitou demiti-lo. Os Kroenkes, com Josh Kroenke cada vez mais influente, mantiveram a paciência. Essa fé foi recompensada no Boxing Day com uma vitória por 3 a 1 sobre o Chelsea que aliviou a pressão imediata, mas a verdadeira declaração veio no mercado de transferências.
A disposição de Arteta para tomar decisões impiedosas tornou-se sua marca registrada. Em janeiro de 2021, Mesut Özil — outrora a estrela mais bem paga do clube — foi indenizado e liberado. Shkodran Mustafi seguiu o mesmo caminho. Foi uma purga cara, mas necessária, de jogadores cujas atitudes não se encaixavam. Um ano depois, Pierre-Emerick Aubameyang foi vendido apesar da necessidade desesperada do Arsenal por gols durante uma perseguição à Champions League. Como capturado em um documentário da Amazon, jogadores como Mohamed Elneny e Rob Holding se maravilharam: "O chefe tem culhão". A mensagem era clara: nenhum jogador estava acima do projeto.
Sob a turbulência, as bases estavam sendo lançadas. William Saliba, contratado antes da chegada de Arteta mas inicialmente sem impressionar, foi emprestado e depois reintegrado para se tornar um pilar defensivo. Gabriel Magalhães, outro acerto de scouting pré-Arteta, chegou em setembro de 2020. E da base, Bukayo Saka floresceu para se tornar um talento de classe mundial. Esses três, combinados com a disciplina tática de Arteta, transformaram a espinha dorsal do Arsenal.
O verão de 2023 foi o ponto de virada. Um gasto de £200 milhões trouxe Declan Rice, Kai Havertz, Jurriën Timber e David Raya — uma declaração de intenções à altura de qualquer clube na Europa. Rice, em particular, recusou ofertas do Chelsea, Manchester United e um retorno ao City porque acreditava no projeto "empolgante" que Arteta vendia. "Estamos em algo grande aqui", disse na época. Essas palavras tiveram peso, especialmente após algumas temporadas em que o título permaneceu elusivo.
A reconstrução de Arteta nunca foi linear. A temporada 2021-22 começou com uma derrota por 2 a 0 para o recém-promovido Brentford, uma derrota em casa para o Chelsea recebida com vaias, e aquela goleada por 5 a 0 no City. O cartão vermelho de Granit Xhaka simbolizou a falta de controle, mas Arteta se recusou a entrar em pânico. Aqueles ao seu redor descrevem um homem de foco inabalável — alguém que nunca se sente sobrecarregado. Lentamente, o elenco absorveu suas demandas por intensidade e flexibilidade tática.
A recompensa veio em maio de 2026. Torcedores do Arsenal que antes vaiaram o time agora cantavam o nome de Arteta enquanto o clube celebrava seu primeiro título da Premier League em 22 anos. O vídeo das reações dos torcedores capturou a emoção crua de uma geração que nunca havia visto tal triunfo. Foi a culminação de um plano de cinco anos que havia superado crises, saídas de jogadores e o ridículo inicial. Arteta não apenas sobreviveu às dúvidas; ele construiu uma máquina capaz de competir com rivais financiados por estados-nação.
O título validou o pensamento de longo prazo dos Kroenkes e a remodelação das contratações de Edu. Do caos inicial do vácuo pós-Wenger a um elenco coeso e faminto, a transformação do Arsenal sob Arteta é um estudo de caso em paciência e construção moderna de times. Quando Rice chegou, ele admitiu que talvez questionasse em particular sua escolha se o título permanecesse distante. Agora, sua decisão parece profética. A história de Arteta não é apenas sobre táticas; é sobre coragem institucional, reinício cultural e a crença de que, mesmo na era do dinheiro no futebol, um plano bem executado pode desafiar as probabilidades.
Baseado em reportagens do The Guardian.