Quando o relógio marca 14:00 CET e a Federação Francesa de Futebol se prepara para divulgar a última lista de convocados, Maxence Lacroix não está atualizando seu e-mail ou esperando um telefonema. O zagueiro do Crystal Palace simplesmente liga o YouTube, pronto para assistir Didier Deschamps anunciar sua seleção ao vivo, como qualquer outro torcedor. É um ritual nascido da pura esperança, não de conhecimento interno – o jogador de 25 anos nunca perguntou ao seu clube se uma convocação preliminar chegou. “Prefiro não saber”, explica Lacroix. “Se você não acredita em si mesmo, o futebol se torna complicado.” Essa inabalável autoconfiança o levou da academia do FC Sochaux-Montbéliard à elite da Premier League, e agora ele mira o prêmio máximo: um lugar na seleção francesa para a Copa do Mundo de 2026.
O caminho de Lacroix até o limiar do reconhecimento internacional é marcado por resiliência e sucesso tardio. Formado no histórico sistema juvenil do Sochaux, ele seguiu a trajetória familiar de zagueiros franceses que se mudam para o exterior, primeiro para a Alemanha com o VfL Wolfsburg antes de chegar ao sul de Londres. Desde que se juntou ao Palace no verão de 2024, ele se tornou um dos defensores mais proativos da Premier League. Os dados da Opta mostram que ele lidera a divisão com 18 interceptações, uma estatística que destaca sua leitura de jogo e antecipação agressiva. Mas não são apenas as estatísticas que definem seu impacto; é o troféu que ele ajudou a conquistar para um clube faminto por sucesso.
A final da FA Cup de 2024 contra o Manchester City ainda ressoa profundamente. Um gol solitário garantiu o primeiro grande troféu do Palace em seus 163 anos de história, e Lacroix teve um papel de destaque na aula defensiva. Ele se lembra vividamente de um encontro casual dias antes da semifinal. “Um torcedor idoso, devia ter 80 anos, me parou na rua, segurando meu braço”, diz Lacroix. “Ele me disse: ‘Antes de eu ir, quero ver o Palace ganhar um troféu.’ Ele havia sofrido duas derrotas em finais. Prometi a ele que aconteceria. Quando levantamos aquela taça, pensei nele.” Esse título, seguido por uma vitória na Community Shield sobre o Liverpool em agosto, transformou a mentalidade do Palace. Sob o comando do técnico Oliver Glasner, as Águias são agora um elenco de competidores insaciáveis, perseguindo cada troféu restante nesta temporada, incluindo a Conference League.
As aspirações internacionais de Lacroix são alimentadas por mais do que ambição individual. Ele viu seu companheiro Jean-Philippe Mateta ganhar sua primeira convocação aos 28 anos, prova de que o caminho para Les Bleus permanece aberto para desenvolvedores tardios. No entanto, o próprio histórico de Lacroix com as seleções juvenis francesas – do sub-16 ao sub-21 – sugere que esse reconhecimento não deveria ser uma surpresa. Ele descreve a seleção nacional como “um sonho de infância”, aguçado pelo duelo semanal com atacantes de classe mundial na Inglaterra. “Enfrento os melhores atacantes todo fim de semana. A Premier League é o campeonato ideal para dar esse último passo”, diz ele. A esperança é que Deschamps, conhecido por valorizar o desempenho nas melhores ligas, eventualmente perceba – talvez até durante o jogo da Conference League em Estrasburgo, onde Lacroix espera uma boa atuação contra o time local, com ex-companheiros do Sochaux nas arquibancadas torcendo por ele.
Fora do campo, o caráter de Lacroix é moldado pelo serviço. Criado por uma mãe que trabalhava como médica, ele internalizou a missão de ajudar os outros. Em janeiro, ele fez parceria com o Palace para distribuir roupas para moradores de rua no sul de Londres, uma iniciativa que ele descreve não como caridade, mas como realização. “Ver minha mãe servir aos outros me fez acreditar que ajudar o próximo é a coisa mais bonita que você pode fazer”, reflete. Ele também permanece profundamente ligado às suas raízes em Ajat, uma vila na Dordonha, e planeja contribuir para seu desenvolvimento. Esse altruísmo se transfere para o campo, onde ele define seu papel defensivo em termos simples: “Estou aqui para proteger meus caras… e, honestamente, acho que faço meu trabalho muito bem.”
Por enquanto, o ritual do YouTube continua. A cada mês, Lacroix se senta diante da tela, coração disparado, pronto para ouvir se seu nome se junta aos de Kylian Mbappé, Antoine Griezmann e os demais. Ele encarna o jogador moderno que se recusa a deixar que a distância entre o sonho e a realidade seja definida por outros. Enquanto a Copa do Mundo se aproxima, suas atuações consistentes por um dos clubes ressurgentes da Inglaterra podem forçar Deschamps a pegar o telefone – ou pelo menos tornar a transmissão ao vivo ainda mais gratificante. Baseado em reportagem do L'Equipe.